Uma alma do outro mundo
Aconteceu ha dias no cemitério d’esta cidade um caso digno de registar-se. Deu-se elle entre o Tasquinha e umas mulheres. Havia este estado bastante doente no hospital d’esta cidade e espalhou-se que havia morrido. Muitas vendedeiras choraram a falta de tão bom freguez e a irmandade de S. Martinho dizem que tratava de celebrar-lhe exequias pelo seu eterno descanço. Felizmente o homem restabeleceu-se e hoje acha-se nas melhores disposições de saude. N’um dos dias da semana passada encommendaram-lhe uma cruz para uma sepultura e elle foi ao cemitério tomar as medidas. Junto desta sepultura estava uma outra aberta e perto d’ella um cypreste. Como o Tasca não estivesse para rodear o cemitério saltou a cova. Elle a acabar de dar o salto e umas mulheres a entrarem as quaes reconhecendo-o cahiram de joelhos e começaram a bradar:—Alma de José Jacintho nós te esconjuramos! O Tasca que é um maganão de bom gosto, ouvindo isto encostou-se ao cypreste e começou a fizer caretas, e arranhar a terra e a chamar as mulheres para lhe communicar um segredo. Estas transidas de medo não se atreviam a chegar-se perto da alma do outro mundo até que este investio para ellas obrigando-as a sahir do cemitério e a correrem, persiguando-se, até Santo André! Escusado é dizer que o caso fez seu barulho e que ainda hoje ha quem creia que a alma de José Jacintho, vulgarmenle conhecido pelo Tasca, anda passeando por este mundo.