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Artigo

O oitavo milagre do mundo

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Alentejo · Badajoz · Elvas · Faro · Lisboa · Loulé · Espanha · Portugal Correspondência · Exterior / internacional · Romano

Consta d’uma carta assignada pelo proprio punho d’um habitante do reino dos Algarves, estampada n’uma gazeta que sai á luz em Elvas, cidade que fica para as bandas de Badajoz, raias de Hespanha, chamada a dita gazeta (impressa em letra redonda, que é invenção do inimigo!) A Voz do Alemtejo, como se o Alemtejo tivesse voz; mas hoje tudo se diz, e tudo se escreve e já não ha quem tape a boca a ninguém: como iamos dizendo; diz a tal carta, como coisa de grande novidade, que (e com effeito para quem pesar bem as coisas e fizer carretos d’uma banda para a outra) que ha já duas legoas d’estrada feita e macadam da villa de Loulé á cidade de Faro e da cidade de Faro á villa de Loulé, que faz o dobro de legoas d’estrada feita na sobredita província do reino dos Algarves. E que esta estrada não é dessas estradas de cagaracá, como quem tem corrido mundo e sabe o que são trabalhos viu muitas pela guerra do Rossilhão, que o mesmo é fazerem-se que desmancharem-se e depois de se despender muita somma de mil crusados vem uma trovoada e lá vai tudo pela agua abaixo, que é uma perdição. Que pelo contrario aquellas duas legoas de Faro a Loulé e de Loulé a Faro, é um regalo; a gente anda por ellas; nem ha besta que ponha ali um pé mal posto, e pode o viandante fechar os olhos e ir seu caminho direito que não ha que errar nem atoleiro. Que fará isto admiração, mormente a quem souber que foi feita a sobredita obra só em dez annos, contados de dia a dia; mas que naquelle reino dos Algarves grande e pequeno trabalham todos com a maior desembaraço nas obras d’el-rei, o que não succede em todas as partes. Que demais a mais não foram justamente dez annos, e sim quinze, se olharmos a que se metteram mãos á obra inda em tempos que o sr. Costa Cabral era secretario de estado da nossa rainha a senhora D. Maria II. E pois as sobreditas legoas fazem pela conta romana quinze kilometros, como agora se diz, ás avessas do pão pão, quejo quejo dos nossos antepassados, vem a cada quilometro (ou como lhe quiserem chamar) acabar de dar um anno de trabalho, o que não é tamanha maravilha que haja de se não acreditar como falsidade manifesta. E diz a carta mais (ou devia dizer) que lançando-se as contas a cem contos de reis, que foi a despesa do estado nas sobreditas duas legoas, sai cada legoa a cincoenta contos cada uma, vindo a dita estrada a ficar sobre bem construída tão barata que nem o Sultão do Egypto nem o Turco as tem por similhante preço. Pelo que tudo sejam dadas muitas graças a Deus e maiormente pela certesa que trabalhando-se na mesma proporção irão os nossos vindouros da cidade de Faro á corte de Lisboa em menos de seiscentos annos pela estrada no tal.