Surpresa
Sociedade e vida quotidianaFalecimentos
O fallecimento do Augusto Monarcha é um facto que não somente nos constrista mas surprehende; porque não achamos nas declarações de que tratam os boletins de Lisboa a rasão sufficiente da morte d’el-Rei! S. M. tinha accessos febris e um d’elles veio acompanhado de symptomas graves: nesta província é isto muito vulgar: chama-se-lhe uma perniciosa; mas d’uma sesão perniciosa, que não mata á primeira, vê-se por aqui escapar muita gente. E se não foi esta a moléstia a que o senhor D. Pedro succumbiu, então qual foi? O povo tem direito a ser esclarecido, mesmo para se desvanecerem boatos aterradores.
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Chegou hontem o destacamento de caçadores 4 que vem render o d’infanteria 15. É lastimável ver guarnecer esta cidade com tropa que tem d’atravessar a serra do Algarve, cujas estradas são quasi intransitáveis durante o inverno. Os soldados arruinam calçado e vestuário, e a sua saude, sem uma necessidade bem provada. Se o soldado deve expor-se a todos os soffrimentos quando é preciso, seja ao menos poupado quando circumstancias imperiosas não exigirem esses sacrifícios.
ExércitoTransportes e comunicaçõesCaminho de ferroEstacçõesMovimentos de tropasQuartéisRecrutamento
Beja precisa tanto d’uma força militar de guarnição que se acham aqui estacionados tres destacamentos, um do Algarve, outro d’infanteria 17 (cujo quartel é Estremoz), e outro de cavallaria. Este foi ultimamente redusido de cincoenta praças a vinte. Pois não seria mais conveniente aqui um corpo de tropa? Aqui se receberiam e instruiriam os recrutas sem precisão d’andarem as escoltas caminho d’Extremoz; e quando a força do corpo o permittisse poderia dar algum destacamento para Elvas.
ExércitoMunicípio e administracção localMovimentos de tropasPartidas
O batalhão de caçadores 8 marchou daqui para Elvas porque, diz-se, aquella praça tinha falta de soldados; e d’alli veio força d’infanteria 17 destacada para esta cidade, para Evora e para outros pontos, que estavam guarnecidos por caçadores 8... Não entendemos.
Transportes e comunicaçõesEstradasObras de infraestruturaPontes
A ponte de Terges e Cobres na estrada de Mertola acha-se já viável embora hajam ainda trabalhos nas guardas e avenidas.—É uma obra digna de consideração pela sua elegancia e solidez.—Tem custado mais de 40 contos de reis. Dirigiu esta bella obra o sr. Mattos, director que foi das obras publicas deste districto.
É de summa conveniência proceder
Transportes e comunicaçõesEstradasObras de infraestrutura
se á construcção dos dois lanços extremos da estrada desta cidade a Mertola.
Parece um raio
Transportes e comunicaçõesCorreio
O correio de Beja (que é também o correio do Algarve) chega a Evora pelas sete horas e meia da noite. É uma boa hora d’agente se deitar. Deita-se e dorme o seu somno socegadinho. Primeiro dia. Lá pelas nove ou dez da manhã do dia seguinte acorda, levanta-se, lava-se, pentea-se, veste-se, arranja-se, prepara-se e sai a dar o seu passeio hygienico pela cidade: visita os seus numerosos amigos; faz-lhes os cumprimentos do estylo, toma nota das pessoas que se nos recommendara e deita-se de novo a descançar. Segundo dia. Ao terceiro dia pela volta das quatro ou cinco da manhã, accorda sobresaltado e pula da cama em cima do cavallo, assim se pode dizer: mete-lhe esporas e adeus! Chegou-lhe a mostarda ao nariz. Ninguém mais lhe põe a vista em cima senão já ás portas de Beja, doze horas depois. Que alegria! que admiração! Quem o havia de dizer! Ninguém o fazia em vida e vai senão quando ahi o temos! É elle, esperto como um rato, o correio d’Evora, que ao terceiro dia resurgiu dos mortos!
Parece
Meteorologia e fenómenos naturais
nos que não seria abusar do seu desembaraço e gentilesa pedir-lhe que em chegando a Evora distribuísse logo as cartas, dando assim tempo a responder na manhã immediata e economisando-se a bagatella de 24 horas, em que se vai hoje de Madrid a S. Petersburgo.
O oitavo milagre do mundo
Economia e comércioExércitoMeteorologia e fenómenos naturaisPreçosTransportes e comunicaçõesBanda militarEstradasObras de infraestruturaPreços e mercadosTrovoadas
Consta d’uma carta assignada pelo proprio punho d’um habitante do reino dos Algarves, estampada n’uma gazeta que sai á luz em Elvas, cidade que fica para as bandas de Badajoz, raias de Hespanha, chamada a dita gazeta (impressa em letra redonda, que é invenção do inimigo!) A Voz do Alemtejo, como se o Alemtejo tivesse voz; mas hoje tudo se diz, e tudo se escreve e já não ha quem tape a boca a ninguém: como iamos dizendo; diz a tal carta, como coisa de grande novidade, que (e com effeito para quem pesar bem as coisas e fizer carretos d’uma banda para a outra) que ha já duas legoas d’estrada feita e macadam da villa de Loulé á cidade de Faro e da cidade de Faro á villa de Loulé, que faz o dobro de legoas d’estrada feita na sobredita província do reino dos Algarves. E que esta estrada não é dessas estradas de cagaracá, como quem tem corrido mundo e sabe o que são trabalhos viu muitas pela guerra do Rossilhão, que o mesmo é fazerem-se que desmancharem-se e depois de se despender muita somma de mil crusados vem uma trovoada e lá vai tudo pela agua abaixo, que é uma perdição. Que pelo contrario aquellas duas legoas de Faro a Loulé e de Loulé a Faro, é um regalo; a gente anda por ellas; nem ha besta que ponha ali um pé mal posto, e pode o viandante fechar os olhos e ir seu caminho direito que não ha que errar nem atoleiro. Que fará isto admiração, mormente a quem souber que foi feita a sobredita obra só em dez annos, contados de dia a dia; mas que naquelle reino dos Algarves grande e pequeno trabalham todos com a maior desembaraço nas obras d’el-rei, o que não succede em todas as partes. Que demais a mais não foram justamente dez annos, e sim quinze, se olharmos a que se metteram mãos á obra inda em tempos que o sr. Costa Cabral era secretario de estado da nossa rainha a senhora D. Maria II. E pois as sobreditas legoas fazem pela conta romana quinze kilometros, como agora se diz, ás avessas do pão pão, quejo quejo dos nossos antepassados, vem a cada quilometro (ou como lhe quiserem chamar) acabar de dar um anno de trabalho, o que não é tamanha maravilha que haja de se não acreditar como falsidade manifesta. E diz a carta mais (ou devia dizer) que lançando-se as contas a cem contos de reis, que foi a despesa do estado nas sobreditas duas legoas, sai cada legoa a cincoenta contos cada uma, vindo a dita estrada a ficar sobre bem construída tão barata que nem o Sultão do Egypto nem o Turco as tem por similhante preço. Pelo que tudo sejam dadas muitas graças a Deus e maiormente pela certesa que trabalhando-se na mesma proporção irão os nossos vindouros da cidade de Faro á corte de Lisboa em menos de seiscentos annos pela estrada no tal.
Tem graça
Sociedade e vida quotidianaTransportes e comunicaçõesEstradasObras de infraestruturaPobres e esmolas
Deixando a arbitrio das partes belligerantes a justiça da ironia transcrevemos o período seguinte que o Magriço dirige á opposição: «O paiz ia ser dotado de uma rede de estradas, que levariam a abundancia a riquesa e o bem estar ás portas de cada um cidadão, que, mesmo da sua cama, não tinha mais que estender a mão para apanhar a fortuna; e isto muito á pressa porque, se se demorasse, corria risco de se ver esmagado por milhares de fortunas, que dentro em pouco o assaltariam de todos os lados, vendo o pobre homem affrontado com tanta fortuna, que o assoberbava. Todas estas redes seriam executadas com tal economia, que o cidadão não teria a pagar nem um ceitil!»
O Povo em Côro
Cultura e espectáculoPolítica e administracção do EstadoSociedade e vida quotidianaConcertosEleiçõesPobres e esmolas
Que delicada harmonia se ouve! Que é isto? Um rancho, que passa, d’homens e moços e mininos, como se ás vezes forma em povos d’Alemtejo, sem eleição nem proposta nem discussão nem votação mas, espontaneamente; como o povo costuma na defêsa da patria e no bem e no mal que o instinto lhe aponta. E como succede em Italia, talvez, em noutes bellas; que Portugal e Italia são irmão e irmã e, o céu, o mesmo. Delicioso canto! Depois d’uma voz lisa, de garganta ainda húmida do leite maternal, soa a turba em duêto afinadissimo e de tal modo trocando a primeira e segunda que, sendo só ignorância d’arte, por ingenhosa combinação de mestre se tivera a não ser musica e musicos e letra, tudo, manifestamente popular. Vai-se o côro volante ouvindo cada vez menos; desvanecendo-se a onda harmoniosa; e do que deixa apoz si (que é não sabemos que saudosa sympathia pelo povo portuguez e todo este nosso Portugal) uma coisa havemos d’apanhar em memória desta noute; assim apanhassemos também a musica! É uma dessas quadras amorosas, como são todas as quadras e cantigas do nosso povo, mas amorosas d’um amor casto e melancholico, puro e tímido, ardente e duvidoso, sem aquella desmedida e descomedida frescura e confiança das canções hespanholas, próprias d’um coração repleto e, por isso, tão pobres d’idealidade e intima poesia.
«Se eu entrasse no teu peito, / Sabia o teu interior; / Assim, como lá não entro, / Não sei se me tens amor!»
Cultura e espectáculoExposições
O Portuguez teve a bondade de copiar o nosso comunicado sobre os productos do Algarve destinados á exposição universal. E realmente um favor muito d’agradecer, e o Bejense agradece do fundo d’alma. O que sente é que o Portuguez não declarasse donde transcreveu o comunicado e, sendo tão portuguez que até por antonomasia se chama o Portuguez, faça dos seus comunicados roupa de francezes!
Presos
ExércitoJustiça e ordem públicaReligiãoBebedeiras e desordensPrisões
Dizem-nos de Mertola: «Não ha muitos dias que vieram dessa cadeia de Beja para a desta villa tres homens accusados d’entrar nos tumultos populares d’Almodovar. Um foi sempre tido em conta de parvo, desde a infancia; os outros são duas nullidades que, ou na paz ou na guerra, só podem fazer numero. Não seria de justiça dar-lhes liberdade; andando á solta tanto scelerado de provada autonomia por esse mundo de Christo?»
Regencia
Município e administracção localPartidas
El-Rei o Senhor D. Fernando assumiu no dia 11 a regencia, entretanto não chega a Lisboa El-rei o Senhor D. Luiz I, que partiu de Southampton no dia 9.
Sociedade e vida quotidianaFalecimentos
Cinco dias antes da morte do Senhor D. Pedro tinha, no dia 6, fallecido seu irmão o Senhor D. Fernando, apenas de quinze annos de idade! A morte não respeita nem idades, nem condições!