Apotres de Renan na alfandega
(Do Jornal de Lisboa.) Um livreiro mandou encommendar, no uso dos seus incontestáveis direitos, alguns exemplares da obra franceza Apotres, de Renan, auctor da Vida de Jesus. Chegaram hontem á alfandega os indicados livros, e o sr. Palmeiro Pinto ordenou logo aos empregados que lhe pozessem impedimento no despacho provavelmente por aquella obra haver sido condemnada pelo Index. Como nem s. ex.ª nem os empregados menos graduados fossem formados em theologia para decidirem este difficil ponto, consta-nos que s. ex.ª mandára um exemplar ao sr. cardeal patriarcha para se resolver se os livros devem ou não ser despachados! Que lhe importa o sr. director da alfandega grande, o livro de Renan? Se não gosta d’elle porque é beato, porque é hypocrila, porque segue a santa religião de Braga, não o leia. Está no seu direito. O que s. ex.ª porem não póde é prohibir isso aos outros nem prejudicar o commercio para servir a reacção. Estas scenas irrisórias não são proprias da epocha e desacreditam-nos aos olhos dos estrangeiros. Que dirão elles quando souberem que se prohibe o despacho da obra Apotres, porque é seu auctor o admiravel estilista E. Renan, e porque o Index a condemnou? Era melhor que o sr. Palmeiro Pinto em vez de estar a dar escandalo e de estudar as determinações do Index, propozesse os meios de facilitar o expediente da casa fiscal que dirige, a qual é um perfeito cahos, como o Jornal do Commercio o tem mostrado. Se s. ex.ª porem não póde introduzir a boa ordem na sua repartição, porque é incapaz disso, então demitta-se, metta-se em casa e rese nas contas. E digam lá que a reacção não triumpha, Iriumpha.