O sr. Infante D. João
A cerca da infausta morte do sr. Infante D. João diz o Commercio do Porto o seguinte: «Ainda se não achavam cumpridos os decretos da Providencia. Ainda a nação Portugueza tinha de soffrer mais uma angustiada provação! Mais um filho querido foi arrancado pela morte ao amor paterno e fraternal! Mais um portuguez illustre, predilecto de todos os portuguezes, baixou ao tumulo! O Senhor Infante D. João, duque de Beja, condestavel do reino, e coronel de lanceiros, é morto! É morto e quando? Quando ainda estão tepidos os restos mortaes do Senhor D. Pedro V e do Senhor D. Fernando; quando ainda se não enchugaram as lagrimas d’uma nação inteira; quando um pai extremoso ainda se persuade ouvir os ais do seu Pedro e do seu Fernando; e quando um estimadissimo irmão ainda se não convenceu de que era rei! É muito soffrer! Quem deixará de condoer-se deste desgraçado paiz? Para quem será indifferente esta singularidade nos acontecimentos tristes, que hão de offerecer aos vindouros uma pagina sensivel na historia portugueza? O sereníssimo infante D. João Maria Fernando de Alcantara Miguel Rafael Gabriel Leopoldo Carlos Antonio Gregorio Francisco de Assiz Borja Gonzaga Felix de Bragança Bourbon havia nascido a 16 de Março de 1842. Era Sua Alteza o individuo da familia real em quem sobresahiam mais as feições da casa de Bragança. De educação esmerada, como a que receberam seus augustos irmãos, a bondade via-se-lhe desenhada no semblante. Affavel para com o povo. Na ultima visita que Sua Alteza fez ao Porto acompanhando o Senhor D. Pedro V, visita que não póde ser recordada sem a mais vehemente saudade, o Senhor D. João sorria-se para as alas do povo que demoravam pelas ruas do transito real. O povo revia-se em Sua Alteza, e ao presenciar o ar cavalheiresco e agradavel do illustre mancebo, dizia:—como é lindo! Quando Sua Magestade o Senhor D. Pedro V, o muito amado, foi com seu Augusto irmão visitar a Alfandega d’esta cidade, ao sahir á porta da repartição para entrar no coche que se achava na rua dos Inglezes, começou a chover. Um homem do povo de humilde posição abriu o seu guarda-chuva e cobriu com elle o Senhor Infante D. João. Sua Alteza aceitou carinhoso o serviço do bom homem, que acompanhou o Infante até ao coche, arrebatado de prazer. Sua Alteza entrou para o coche e bondosamente agradeceu o serviço prestado. É por acções d’estas que os filhos da Senhora D. Maria II e do Senhor D. Fernando grangeiam as geraes sympathias do povo. É por essa razão que o coração do povo se despedaça ao considerar as irreparáveis perdas que tem soffrido com a morte das pessoas reaes. Nos salões era Sua Alteza um estimável cavalheiro de singela affabilidade e ameno tracto. A todos encantava. Todos o choram hoje. Sua Alteza era coronel de lanceiros. Os soldados morriam pelo seu commandante. Ainda ha pouco gritavam no auge da desesperação que queriam vel-o. Hoje terão de acompanhar o cadaver a S. Vicente de Fóra! Pobres soldados! Se a dor não fosse geral só a vossa a despertaria em todos... Desejaríamos continuar... não podemos... A fatalidade que vemos perseguir a familia real e o nosso paiz preenche-nos de tal sentimento, que a expressão nos foge e a penna nos cahe das mãos...»