O SENHOR INFANTE D. AUGUSTO que ha dias era dado em convalescença tem novamente grande fastio, e febre. O incommodo dos pés tem quasi desapparecido. Qual incommodo? Não nos tinham ainda fallado em doença nos pés. Dizem-nos particularmente de Lisboa que Sua Alteza teve abscessos n’um pé e que está marasmado.
Posse
Tomou hoje posse do logar de secretario geral do governo civil d’este districto o sr. dr. Francisco Luiz de Castro Soares da Cunha Rego.
Nova vereação
Tomou posse a nova camara municipal desta cidade. Sabemos que todos os cavalheiros que d’ella fazem parte estão animados da melhor vontade d’accudir ás necessidades do municipio. Deus queira que não esfriem no seu zelo e que sejam coadjuvados por todos.
Commando da Sub-divisão militar de Beja
Está nomeado para este logar o sr. Conde de Bomfim (José). Que esperanças de vir para esta cidade um corpo de tropa! Este commando costuma pertencer ao commandante do corpo aqui existente. Diz-se que vem aqui estacionar um forte destacamento de cavallaria, e que vai para Villa Viçosa um batalhão d’infanteria. Achamos uma idea sublime! Para Beja onde ha um bom quartel para infanteria vem cavallaria, para Villa Viçosa onde ha um quartel para cavallaria vai infanteria!
Recrutamento
Consta-nos que uma boa parte dos recrutas que tem sido approvados na inspecção do governo civil se tem substituído a dinheiro. Como é possivel termos exercito com tal systema? Admitta-se (porem quanto) só a substituição pessoal e logo os corpos se prehenchem. Os mancebos que são apurados parece que tem menos repugnância para o serviço militar, depois que sabem que o governo tem mandado dar as competentes baixas no fim dos 5 annos.
Theatro
Uma commissão de onze cavalheiros desta cidade tratam de formar uma companhia com todas as formalidades legaes para a construcção d’um theatro. Vão dirigir-se a todas as pessoas da localidade e proximidades que estão no caso de tomar acções, e em tendo a assignatura de seis contos de reis constitue-se a companhia. As acções são de 25$000, 50$000, e 100$000 reis. É d’esperar que desta vez se realise uma obra que a civilisação desta terra está reclamando imperiosamente.
Dizem
nos do Botiquim que todos os domingos e dias santificados são grandes as desordens por causa da embriaguez dos frequentadores dos templos de Baccho, que estão abertos até ás duas horas da noite! E forte devoção!... Depois jogam o socco, rasgam-se, gritam, as mulheres choram atraz d’elles, e resulta tal alarido que nem deixam dormir o cidadão pacifico que só adora a Morpheu! No dia 15 do passado com a eleição do sr. Juiz Eleito, que foi muito renhida, foi tal o barulho e desacato á moral publica que indo o regedor apasigual-os teria sido victima se não resolvesse meter-se em casa. Será verdade!
Será verdade!—Diz a Folha do Alemtejo que lhe consta por cartas de Lisboa ter-se ali recebido um telegramma relativo á prisão de 300 e tantos indivíduos em Londres, como cumplices no envenenamento do principe Alberto! A ser verdade, forte malvadez tem o governo inglez, pois segundo a logica da Revolução de Setembro só sonha com veneno quem é capaz de o propinar!!
Caminho de ferro
Chegou ha dias a esta cidade um engenheiro inglez que vem fazer estudos para o prolongamento do caminho de ferro até ao Guadiana.
Descoberta curiosa
Um nosso amigo, muito dado a observações microscópicas, diz-nos ter feito uma descoberta importante no tabaco dos cigarros. Examinando minuciosamente os bolorentos (que são quasi todos) viu uma nova especie de oidium cujos caracteres são muito similhantes ao oidium das uvas. Como o nosso amigo se chama Eugenio propõe chamar a esta nova especie “Oidium Eugenii, sive nicotianae”. Está redigindo uma memoria que pretende apresentar á Academia das sciencias, se o contrato do tabaco der licença.
Queda
Um empregado do telegrapho desta cidade ha poucas noites cahiu das escadas que conduzem á estação, o que não admira porque alem de serem muito desiguaes, não tem guardas. Eram 9 horas e já estava apagado o candieiro que ali foi collocado para prevenir algum sinistro. Consta-nos que apenas ficara maguado; ainda desta escapou de quebrar a cabeça ou alguma perna. É indispensável conservar alumiada toda a noite aquella perigosa escada, e tapar uma abertura que existe no parapeito, que ha ao sahir da estação; e para onde toda a gente que não conhece bem o sitio, se dirige suppondo ser a escada.
Mais uma vez!—De novo pedimos providencias, tendentes a melhorar as condições do transito pelas ruas da cidade. Hontem ás 10 horas, os candieiros achavam-se todos apagados; a noite estava tenebrosa e o transito pelas ruas era não só difficil, mas arriscado. A despeito das posturas municipaes, encontram-se, n’alguns pontos da cidade carros, madeiros, &c., que podem occasionar graves sinistros a quem caminha pelas ruas. Appellamos hoje para o zelo e bons desejos dos cavalheiros que compõem a nova administração municipal, e instantemente lhes pedimos providencias energicas a tal respeito.
Casa Pia
Continuam as obras na parte do edificio que hade acomodar as crianças do sexo masculino.
Granja modelo
Consta que se tracta d’estabelecer uma granja onde se hão de fazer os ensaios agricolas em ponto grande, em vez de se limitarem á horta modelo, que não póde de maneira alguma satisfazer ás exigências do districto.
Gado muino
Tem-se vendido a 2$000 reis a arroba (15 kilogrammas).
Transferencia
Foi transferido o administrador do concelho de Barrancos o sr. David Lopes da Cunha Pessoa para identico logar no concelho de Mertola.
Nomeação
Foi nomeado administrador do concelho de Serpa o sr. Antonio de Mello Braynér, e administrador substituto do mesmo concelho o sr. Francisco Manoel Louzeiro.
Alvito
Foi autuado e remettido ao poder judicial um individuo por nome Francisco, o qual feriu a um outro por nome Isidoro, ambos desta villa.
Serpa
Foi instaurado um auto d’investigação contra José Francisco Gambujo da Aldea de Brinches por haver ferido a Gabriel Maria Collaço.
Outro
Foi capturado e entregue á acção da justiça Antonio Lourenço Pastor pelo crime de ferimentos praticados na pessoa d’Antonio Joaquim Fava, ambos do supradito concelho.
O sr. Infante D. João
A cerca da infausta morte do sr. Infante D. João diz o Commercio do Porto o seguinte: «Ainda se não achavam cumpridos os decretos da Providencia. Ainda a nação Portugueza tinha de soffrer mais uma angustiada provação! Mais um filho querido foi arrancado pela morte ao amor paterno e fraternal! Mais um portuguez illustre, predilecto de todos os portuguezes, baixou ao tumulo! O Senhor Infante D. João, duque de Beja, condestavel do reino, e coronel de lanceiros, é morto! É morto e quando? Quando ainda estão tepidos os restos mortaes do Senhor D. Pedro V e do Senhor D. Fernando; quando ainda se não enchugaram as lagrimas d’uma nação inteira; quando um pai extremoso ainda se persuade ouvir os ais do seu Pedro e do seu Fernando; e quando um estimadissimo irmão ainda se não convenceu de que era rei! É muito soffrer! Quem deixará de condoer-se deste desgraçado paiz? Para quem será indifferente esta singularidade nos acontecimentos tristes, que hão de offerecer aos vindouros uma pagina sensivel na historia portugueza? O sereníssimo infante D. João Maria Fernando de Alcantara Miguel Rafael Gabriel Leopoldo Carlos Antonio Gregorio Francisco de Assiz Borja Gonzaga Felix de Bragança Bourbon havia nascido a 16 de Março de 1842. Era Sua Alteza o individuo da familia real em quem sobresahiam mais as feições da casa de Bragança. De educação esmerada, como a que receberam seus augustos irmãos, a bondade via-se-lhe desenhada no semblante. Affavel para com o povo. Na ultima visita que Sua Alteza fez ao Porto acompanhando o Senhor D. Pedro V, visita que não póde ser recordada sem a mais vehemente saudade, o Senhor D. João sorria-se para as alas do povo que demoravam pelas ruas do transito real. O povo revia-se em Sua Alteza, e ao presenciar o ar cavalheiresco e agradavel do illustre mancebo, dizia:—como é lindo! Quando Sua Magestade o Senhor D. Pedro V, o muito amado, foi com seu Augusto irmão visitar a Alfandega d’esta cidade, ao sahir á porta da repartição para entrar no coche que se achava na rua dos Inglezes, começou a chover. Um homem do povo de humilde posição abriu o seu guarda-chuva e cobriu com elle o Senhor Infante D. João. Sua Alteza aceitou carinhoso o serviço do bom homem, que acompanhou o Infante até ao coche, arrebatado de prazer. Sua Alteza entrou para o coche e bondosamente agradeceu o serviço prestado. É por acções d’estas que os filhos da Senhora D. Maria II e do Senhor D. Fernando grangeiam as geraes sympathias do povo. É por essa razão que o coração do povo se despedaça ao considerar as irreparáveis perdas que tem soffrido com a morte das pessoas reaes. Nos salões era Sua Alteza um estimável cavalheiro de singela affabilidade e ameno tracto. A todos encantava. Todos o choram hoje. Sua Alteza era coronel de lanceiros. Os soldados morriam pelo seu commandante. Ainda ha pouco gritavam no auge da desesperação que queriam vel-o. Hoje terão de acompanhar o cadaver a S. Vicente de Fóra! Pobres soldados! Se a dor não fosse geral só a vossa a despertaria em todos... Desejaríamos continuar... não podemos... A fatalidade que vemos perseguir a familia real e o nosso paiz preenche-nos de tal sentimento, que a expressão nos foge e a penna nos cahe das mãos...»