Voltar ao arquivo
Artigo

CORRESPONDENCIAS

Acidentes e sinistrosCultura e espectáculoMeteorologia e fenómenos naturaisPolítica e administracção do EstadoSociedade e vida quotidianaTransportes e comunicaçõesAssociaçõesCheiasGoverno civilLivros e publicaçõesObras de infraestruturaPobres e esmolasPontesVentos fortes
Correspondência · Governo Civil

Coruche 30 de agosto de 1866. Mais um valente, Salva vidas, um habil nadador, um homem util á humanidade, lançado no olvido, e no abandono!—Silvestre Calheiros, moço de vinte annos de idade, pouco mais ou menos, [ilegível], residente na villa de Coruche, districto de Santarem, aquém aquella povoação tem visto arremessar-se ao Sor, rio caudalossissimo nas suas cheias mais impetuosas, para arrancar das garras da morte aos desgraçados que por qualquer sinistro ali tem cahido; e este facto que vou contar; deu-se comigo. No dia 16 de março, d’este anno, meteu-se-me na cabeça ir bordejar n’uma lancha do ill.mo sr. Joaquim Raposo, e em minha companhia levava meu irmão José Maria Lopes, não ia por minha vontade, pelo facto, de não saber nadar.—Vi que pelo rio acima, ia no seu cahique, o ill.mo sr. Antonio Raposo, e como este cavalheiro me tem sempre dispensado a sua amizade, lembrou-me ir, para o mesmo sitio aonde elle se dirigia, que era para uma propriedade do mesmo sr. e que se denominava —A Alverca.— Andavamos em pouca distancia, e quando chegamos ao sitio do Alvercão, a escota que ia nas mãos de meu irmão, como viesse uma rajada de vento mais forte, correr-lhe, safando-se completamente, a vella empaposou-se, e obrigou a voltar-se a lancha, que ficou, de fundo para o ar, e aqui vim eu, e meu irmão, cerca de 700 m. pela corrente do rio fóra com o perigo, de que se chegássemos á ponte, em grande parte dava a minha vida, e a de meu irmão. Quiz-nos acudir—não nos podia seguir com o barco porque era impossível apanharmos antes que chegássemos á ponte.—Occorreu-lhe a maravilhosa idea de chegar o cahique, á terra, e mandar saltar Silvestre, que, que correndo por terra, com uma corda, poude atira-la, em tão certesa, que nos ficou logo na mão—assim que nos viu seguros á corda, lançou-se á agua, e acabou de nos salvar, trazendo-nos para terra. Assim que nos depositaram na praia, a primeira pessoa que vi ao pé de mim foi o ill.mo sr. Antonio Raposo; que me demonstrou a maior prova de estima. Muitas tem sido as victimas, salvas por Silvestre, e ainda não tinham decorridos 8 dias depois do facto que acabei de narrar, que um individuo d’aquella povoação por nome Adriano Guex, cansado de soffrer, uma dor sciatica n’uma perna, projectou dar-se a enforcar-se no rio.—Silvestre foi quem o salvou: e isto no seu val. Outro dias depois, um creado do ill.mo sr. Antonio Raposo, cahiu do bordo do cahique e foi logo ao fundo—Silvestre precipitou-se a salvar o desgraçado, e trouxe-o para fóra d’agua... Em fim, se fossemos a narrar os factos praticados por esse valente rapaz em favor da humanidade a filia, seriam poucas as colunnas d’um jornal. Esperei sempre, que a authoridade local, informasse o ex.mo sr. governador civil, para que um dia, sobre a velha camisola, d’aquelle bravo se visse brilhar a medalha de mérito, que o governo, ou a sociedade humanitária tem destinado, para aquelles que lutando com mais horrível dos elementos, conseguem puxar as lagrimas das famílias desoladas pela perda d’um de seus membros mais estremecidos, e que restituiem á vida aquelles que instantes mais seriam apenas cadaveres. Esperamos, e confiamos que a authoridade administrativa tome em consideração os serviços do pobre Silvestre, e que arrancará do olvido acções que devem brilhar ao sol da publicidade, tendo uma povoação de milhares de pessoas que o podem allestar. Honra ao ill.mo sr. Antonio Raposo; que esquecendo-se o ill.mo sr. dr. Malta das acções briosas de Silvestre, lembrou-se o mesmo sr. Raposo d’aquelle infeliz que o tem empregado em sua casa ha já bastante tempo. Julio Maria Lopes.