CORRESPONDENCIAS—Ferreira 18 de setembro de 1866
Sr. redactor.—Lendo o numero precedente do seu jornal, deparei com uma correspondência desta villa; li-a a principio com alguma indifferença, porem em seguida, vendo que me dizia respeito, liguei-lhe a attenção devida: O seu objecto principal, como v. sabe, era narrar os acontecimentos, que tiveram lugar na ultima eleição municipal, e n’esta narração, dirigiram-se principalmente contra a auctoridade administrativa, censurando, calumniando não só esta, mas muitos indivíduos d’esta terra. Admirei-me da ousadia do tal correspondente, e corri a conhecer quem o tal era, e comecei a cabeçal-o!! Qual foi a minha surpresa, quando vi, que o homem, que assim fallava, era «um mascara». Terei como consequência, que esse homem não era capaz, de se apresentar francamente em publico com a verdade, que pretendia demonstrar! Seguiremos o seu exemplo, mas não me occulto ao illustre numero nem aos meus patricios: Sou «o activo galopim eleitoral» (assim denominado na correspondência) que me apronto francamente a dizer a verdade tanto na imprensa, como n’outro qualquer lugar, porque o medo nunca me acompanhou em tempo algum; e deveria calar-me quando «um mascara» para calumniar uma auctoridade, para dar força ao seu argumento, me condemnava? Não. Em nome de Deus e da lei chamemos os homens para o esperado da sua actividade! São duas as proposições, que me dizem respeito, e são por consequência duas as que me estão reclamando justiça n’essa correspondência, por isso vou explical-as, analysal-as e veremos se são verdadeiras: Diz «o illustre Aldeão» que o activo galopim eleitoral auxiliou a auctoridade, porque esta lhe prometteu o livramento do recrutamento de um filho, e apresenta isto como um axioma, que grande calumnia! Eu, e todos em geral trabalhamos segundo a nossa convicção, apezar de não estar em harmonia com o bom senso, justiça, e imparcialidade, como diz «o illustre mascara»; follo sem saber a quem me dirijo, só sei, que não é dr. nem a tal tem aspiração; mas quem me diz, que realmente o não é? Ninguém; por isso guardarei o respeito devido, e direi que a respeito do livramento de meu filho, sempre me portei com a maior dignidade que o dever de um bom cidadão me impõe; se tive alguma esperança no seu livramento, (o que se deve admittir a um pae) não fui fundada em promessas, mas sim na lei! Parece-me que devia haver alguma probabilidade de se livrar um mancebo, que estava collocado no vigessimo quinto lugar do sorteio!? Ainda assim a auctoridade d’essa cidade pediu até aos que estavam depois d’elle, por conseguinte teve de ser substituída por dinheiro, sem haver de minha nem da parte da auctoridade a menor illegalidade, ficando eu completamente satisfeito do modo por que este negocio correu, porque já previa com bastante antecedência, que as boas ou más linguas sempre diriam alguma cousa, se a lei livrasse o meu filho do recrutamento; esta é que é a verdade, mas tudo isto de nada serviu, porque ainda haure quem lançasse mão deste facto declarado abertamente, para junto com outros, dar força ao seu argumento e depois prova-o da modo seguinte: Tripas centenares de pessoas, que lastimam este estado de cousas; pois dir-me-hei que ha milhares de nossos patricios, que são d’opinião contraria. A segunda proposição é que eu trabalhei tendo também em vista mostrar a minha gratidão a alguém, que a um meu havia feito não pequeno favor, havia pouco tempo. N’esta foi menos explicito, que na primeira; favores que estão nas fontes da justiça recebem nós reciprocamente todos os dias, por conseguinte não sei qual d’elles toca aqui referir; qualquer que seja nenhuma força tem para o seu argumento, tivesse lhe feito bem não ser mais explicito, porque se o fosse seria contra elle; todavia é bastante escandaloso, repito, querer entrar na minha vida particular, e para que? Para mostrar vis paixões! Quem quer que sejas se tendes consciencia, consultai-a; desafio-vos para isso; a minha está socegada e tranquilla, a vossa não. A feição da vossa correspondência fez-me crer que tendes o coração muito proximo da bocca, e que tendes um pequeno estomago para digerir o seguinte: Que os verdadeiros filhos de Ferreira não se deixam calcar por estranhos, quando estes apresentam idéa contrarias ás suas; nem pelos seus quando estes nada tem de patriotismo; este é o partido, que aqui se segue; não necessito das vossas pouco sinceras reflexões; para minha defeza apresento o meu comportamento religioso, moral e civil, sou filho d’esta terra, eu, e todos os meus teem vivido com o temor de Deus, e sempre entregues ao honrado trabalho, por consequinte, quando outra cousa não tivesse a meu favor, bastava-me o direito de naturalidade, e o meu comportamento: o qual será verdade? É problema de facil solução; estabeleça-se a hypothese, porque a these será resolvida. Ficamos hoje por aqui, se não dizemos mais, é porque ignoramos a quem nos dirigimos. Sou de v. etc. Em burguez.