Correspondências
Villa Real de Santo Antônio 17 de outubro de 1866 (Continuado do n.º antecedente)—Almas impertigadas e cegas! Não vedes as difficuldades com que luta a pobre pátria nossa? Não descaireis que aquelle caminho de ferro imporia em muito e deve render pouco? Vós srs. deputados algarvios levareis por elle os vossos productos á capital por 120 rs. a arroba (mínimo) tendo as vias doquars que vol-os levam por 20 rs.? De certo que não. Então para que é aquelle caminho á custa de tantos sacrificios? Para vós irdes a Lisboa? Sim, senhores, é essa a unica vantagem que tal caminho póde dar. Por que não terã o remorsos os que para tal obra concorreram? Não se lembram que podíamos ter já caminho de ferro em Serpa, com menos tempo, e menos dinheiro do que a companhia pede? Pois é tão governativo e parlamentar, pôr um caminho de ferro no Guadiana, longe de Serpa, sem correspondencia de Hespanha; e levar outro ao Algarve, sem favor a nenhuma povoação importante, e sem haver productos para transportar por elle? Não podia ser seria uma tal exigência. O coração do homem publico é patriótico, não pode parar um—pêso para todos. O sr. Fortunato de Mello pugnou pelo seguimento da via ferrea de Beja a Mertola, navegação a vapor d’esta a Villa Real, e quando possível caminhar o ferreo carril pelo litoral do Algarve. Pois não é isto mais razoavel, mais breve, mais barato, e muito mais conveniente para todos? Ninguem o seguiu. Tudo podia estar feito até Villa Real? Os vapores de reboque da empresa de S. Domingos, de quilha, e grande lotação, já por vezes tem ido a Mertola sem encontrarem obstaculos; e assim demonstrava-se até á evidencia que podiam ir vapores pequenos de quilha rasa, feitos de proposito, como ha em nome d’outras nações, que sabem, melhor do que nós, preferir a economia ao esbanjamento, e o mais proficuo ás fanfarronadas balofas de fidalgos pobres. Por desgraça dos viandantes, e dos interesses da abandonada povoação, nem a estrada se faz ainda! e mais urge ser feita—as duas leguas, quasi intransitáveis, junto a Mertola, nem-se! das maldições dos transeuntes. Entretanto no entroncamento que a natureza magistralmente já fez a sua obra, e por fim não temos estrada, e não temos caminho de ferro, n’um local por onde transito hoje todo o Portugal, Algarve, e Andaluzia! O ramal que termina no Guadiana está bem; aquella povoação é importante, e seus rendimentos devem ter fabuloso. O do Algarve dispensa commentarios, porque tudo está dito a seu respeito, e Portugal inteiro sabe os interesses que d’elle hão de provir. Os apologistas do caminho de ferro do Algarve, pela directa, já que fui prevenido, taxam de futilidades as convincentes razões que se teem adduzido contra tão infructifero pensamento, sem se lembrarem que as verdades ditas por Christo tambem foram taxadas de banalidades pelos judeus, e que mais tarde tiveram de reconhecer por verdades eternas. O sr. ministro das obras publicas ainda pode remediar parte do mal: acabe s. ex.ª tão depressa que a patria agradecida o bem dirá, e os corações verdadeiramente patrióticos exultarão de alegria. Resta-me noticiar que o sr. governador civil do districto esteve em Mertola em visita. Não sei os assumptos de que tratou porque não pude assistir. Ha ali muito que fazer porque é a terra mais atrazada em melhoramentos materiaes que tem o baixo Alemtejo. Não tem calçadas, não tem policia, e nem administrador!—O sr. dr. Batalha está suspenso por uma vereação inqualificavel—uma boçal e má reacção. Esperemos pois. J. M. M.