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BEJA 23 DE NOVEMBRO

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Algarve · Aljustrel · Badajoz · Beja · Ciudad Real · Évora · Faro · Lisboa · Madrid · Portalegre · Porto · Espanha · Portugal Correspondência · Exterior / internacional · Governo Civil · Interpretacção incerta

Revista da semana—Não trouxe o Diário uma unica providencia de interesse publico mas em compensação abundaram os boatos. Diz-se que entre os membros do gabinete não ha a melhor harmonia e que o sr. ministro do reino chegara até a pedir a sua demissão. Parece que um projecto do sr. Fontes em que não só quer considerar nacionaes as dividas do sr. D. Luiz, mas até pretende elevar a dotação real de um conto de reis diário a dois, foi a causa da desintelligencia. Sobre o assumpto appareceu no Jornal do Commercio um excellente artigo. Se não fôr desmentido na folha official o que nelle se diz, havemos de o reproduzir porque as idéas ahi expendidas não destoam das que já por outra occasião manifestámos. Parece que vamos a ter a nossa bab wher e uma guarda civil de 3:000 homens divididos em tres corpos sendo de cavallaria um e de infanteria dois. Fazemos votos para que esta medida vá por diante, e que aquella não passe de boato. Somos contra o chuço e a raúna. O corpo consular diz-se que vae ser reformado e que a fazenda publica terá uma nova organisação. Se consistir em augmento de papelada e por consequência de empregados, o melhor será deixal-a como está. Das colonias consta-nos que se vae tractar seriamente, e informam-nos que o Tejo será fortificado com tres monitores, e que se vae formar uma esquadrilha de evoluções. Venham lá mais essas manobras. Como se verá n’outra secção d’esta folha está fixada, para o dia 28 do corrente, a abertura da linha ferrea de Ciudad-Real a Badajoz que liga as linhas de Lisboa e Madrid. Não ha como estava projectado, inauguração solemne. Apenas assistem alguns ministros hespanhoes e portuguezes á festa coroando-a com dois jantares um em Badajoz e outro em Lisboa. Estão novamente a concurso asininas de Aljustrel. Approxima-se o anno de 1867, e por conseguinte a epocha da reunião dos corpos legislativos, em cuja sessão, é voz publica e constante, serão apresentados pelos srs. ministros grandes projectos de reformas em differentes ramos da publica administração. Entre estas reformas aquella que mais occupa os ânimos, aquella de que mais se falla por toda a parte, e até se discute, é sem duvida a que se diz reforma administrativa. Parece mentira como certas pessoas tem tão bons correspondentes nos gabinetes dos srs. ministros, ou como estes propriamente andam a mostrar a sua obra a tanta gente, que já nos dizem quaes os logares que ficam, os que são suprimidos, as economias que se fazem, as despezas que se augmentam, e tantas outras cousas, que nos deixam abismados de tanto saber! A verdade é que a cousa toma vulto; visto que alguns jornaes nos noticiaram, que algumas camaras já teem dirigido representações ao governo, pedindo não sejam suprimidos os districtos a que pertencem: parece-nos isto ou muito prematuro, ou então que conhecem d’elles tanto a inutilidade da existência, que já anteveem que, havendo golpe, necessariamente lhes hade tocar por casa. Esta gente pois, que sabe tudo, affirma que é o districto de Beja um dos suprimidos. Não sabemos que razões tenham para assim o poderem dizer; mas, sejam ellas quaes forem, hão de permittir-nos que lhes digamos, que não o podemos acreditar, talvez porque, apesar de nos faltarem tão boas informações, confiemos mais no bom senso e intelligencia do sr. ministro do reino. O sr. Martens Ferrão sabe que o districto de Beja mede uma area de 1:076:522 hectares de superfície, como ha pouco acabou de verificar a nossa excellente, bem dirigida, e trabalhadora commissão geodésica, e que por conseguinte um districto tal não pode dividir-se sem um grande transtorno e graves vexames dos povos, que o compõem. Sabe mais sua ex.ª que entre este districto e o do Faro pôz a natureza uma cordilheira de montanhas, atravessadas de caudulosas ribeiras; e que os usos e costumes de seus habitantes, natureza e cultura de solo, são tão differenles dos nossos, como se vivéssemos a cem legoas de distancia. Sabe tambem sua ex.ª que a povoação alentejana mais próxima de Faro, dista doze legoas, sendo nove d’aspera serrania; e que, ainda quando construída a linha ferrea, esses habitantes ficam mui distantes d’ella pois lhe fica a estação mais próxima a não menos de 20 kilometros de distancia, e d’ahi a Faro talvez não tenham a percorrer menos de 80 kilometros, o que tudo lhe trará uma despeza próxima de 3:000 rs. o que corresponde a quasi dez dias de trabalho ao operario. E quantos d’estes terão dependências no governo civil? Sabe tudo isto sua ex.ª, e sabe mais ainda, que a existência de uma linha ferrea não é razão sufficiente de suppressão de districtos; porque, se o fora, deviamos ficar com tres únicos, Faro, Lisboa e Porto, construída que fosse a linha do Algarve. N’estes termos, quer esta gente fazer-nos acreditar que o sr. ministro despreza todas estas circumstancias, que a sua alta capacidade e prudência bem hão de ter meditado, e vem propor a suppressão d’um districto de uma tal area, para conservar um outro, cuja superfície dividida, por exemplo, pelos de Lisboa e Evora, ainda nenhum d’estes fica com uma area igual á que hoje tem o de Beja. Demonstremos: O districto de Portalegre tem de superfície 637:750 hectares, metade d’esta que são 318:875 reunidos aos 744:892 hectares que tem actualmente o districto de Lisboa, fica este contendo 1:063:767, que são menos 12:755 que os que o de Beja tem. A outra metade 318:875 reunidos aos 739:790 que tem actualmente o districto d’Evora fica este contendo 1:058:865 que são menos 17:657 que os que o de Beja tem. A’ vista do expendido parece incrivel que nos queiram fazer acreditar maranhões de tal ordem e com tanta semceremonia. Estamos convencidos, por conhecermos o caracter do sr. ministro do reino, que a uma tal medida—a ser de vantagem tomar-se, o que para nós é ainda controverso, como em outra occasião havemos de demonstrar—hade presidir a maior prudência e rectidão, e não a compadrice, a predilecção, ou a boa ou má vontade; porque em medidas d’esta ordem deve haver toda a attenção á topographia do paiz, á sua população, aos seus usos, costumes, e meios de vida, para assim fazer-se uma divisão, que, estando em harmonia com estas prescripções, todas as classes possam levar aos tribunaes respectivos suas pendências sem gravissimo vexame e, porque é preciso não olvidar o principio de que todo o governo livre deve ser estabelecido em attenção á maxima vantagem dos governados e não á dos governantes. Ficámos hoje por aqui.