FESTEJOS EM VENEZA
Foram brilhantes os festejos que a rainha do Adriático fez para celebrar a sua emancipação do jugo austríaco. No dia 7 teve lugar a entrada do rei Victor Manoel. Desde as humildes janellas do gondoleiro até as do aristocrata, desde a rua mais obscura até á formosissima praça de S. Marcos, tudo estava empavoado de galhardetes, sanefas, cobertores de seda e bandeiras. Ás 11 horas e 15 minutos chegou á estação do caminho de ferro, acompanhado dos principes Humberto e Amadeu e do ministério, o rei da Italia. Terminadas as felicitações que lhe dirigiram a municipalidade e auctoridades civis e militares entrou sua magestade e os principes, depois de saudarem o povo, n’uma sumptuosissima gondola tripulada por marinheiros revestidos dos costumes tradicionaes do tempo da republica: faziam parte no cortejo a gondola da cidade, as das cidades venezianas, Mantua, Vicencia, Padua, Verona, Udine, Rovigo e Treviso, sendo cada uma d’ellas enfeitada com as suas respectivas cores municipaes e conduzidas por marinheiros revestidos de trajes históricos. De conserva com o real cortejo, navegavam milhares de gondolas ordinárias, entre as quaes destacavam algumas pertencentes ás familias nobres de Veneza. Pelo canal grande se dirigiu o cortejo para a praça de S. Marcos. Ao longo do trajecto, que durou boas duas horas, nas margens cobertas de espectadores, nas janellas dos palacios, na immensa quantidade de gondolas—verdadeiro caes movediço—que formavam alas ao cortejo, resoavam continuos e phreneticos applausos a sua magestade; sobre a gondola real choviam coroas e flores incessantemente. Onde porem o enthusiasmo redobrou foi quando a gondola atracou á Piazzetta. A guarda nacional formada em alas assim como as tropas, representantes de todas as associações italianas e da imprensa europea, milhares de estrangeiros e todo o corpo diplomático vestido de grande uniforme, esperavam o rei. Ao chegar o cortejo operou-se na multidão um movimento electrico; um estrondoso grito de—viva el-rei!—os lenços que por toda a parte se agitavam, o troar do canhão, o rufar dos tambores e o som da musica, tudo isto commovia profundamente a alma. Sentia-se porém que o enthusiasmo universal era verdadeiro, e que as ceremonias officiaes eram simples accessorios. Depois do desembarque, o rei, seguida pelo seu cortejo, dirigiu-se a pé á egreja de S. Marcos para assistir ao Te-Deum. Ao entrar na egreja, Victor Manoel foi saudado e acclamado varias vezes pelo povo que ali o esperava. O patriarcha teve de suspender por alguns instantes o acto divino. Occorriam á lembrança os gritos que restavam em S. Pedro de Roma, no dia de natal do anno 800: Viva Carlos por longos annos, imperador dos romanos. Concluido o Te-Deum, o rei dirigiu-se ao palacio real, atravessando a pé a praça de S. Marcos. No momento em que entrava no palacio a praça estava litteralmente apinhada de gente. Calcula-se o numero de espectadores para mais de 110:000. Quando Victor Manoel appareceu á janella teve logar um plebiscito por acclamação, cuja sinceridade a ninguem é dado contestar. Victor Manoel mostrou-se ainda varias vezes; levantaram-se todas as mãos, e da praça, das janellas, dos telhados, partiu um estrondoso grito de viva el-rei! Á noute illuminou-se a cidade a giorno mas um denso nevoeiro prejudicou um pouco a illuminação do canal grande, porque não se podia formar uma ideia do effeito geral das decorações luminosas dos palacios: era preciso approximarem-se as gondolas a cada edifício para apreciar o effeito das luzes. Apezar d’este inconveniente, algumas d’estas illuminações eram litteralmente maravilhosas. O admiravel palacio Foscari, cuja fachada é recamada de baixos-relevos de um estylo irreprehensivel, apresentava-se illuminado com as tres cores nacionaes, de alto a baixo. Mas o que era sobretudo surpreendente, era a illuminação architectonica da ponte de Rialto. Esta ponte tem um só arco mui elegante e de um vasto perfil. Os parapeitos são ornados de lojas elegantes de um estylo harmonioso. Uma escadaria de 50 degraus dá accesso ás lojas d’esta parte monumental. Tudo isto estava illuminado. A ponte brilhava com luzes vermelhas e verdes. A vasta boca do arco dava uma ideia da gruta de Aladim. No porto os navios que estavam maravilhosamente embandeirados appareceram tambem maravilhosamente illuminados assim como no interior as innumeraveis gondolas com musicas dentro a percorriam, parecia transformada n’um lago de fogo. O aspecto da praça de S. Marcos era maravilhoso tambem; uma onda immensa de luz jorrando de milhares de globos de todas as cores e dos arabescos dos palacios, tornava-a deslumbrante. Toda a noite a praça esteve atulhada de gente que sem descançar acclamava el-rei, os principes e a Italia. N’uma das vezes que el-rei appareceu á janella o povo improvisou uma serenata, entoando um coro nacional, com uma harmonia de vozes que só a natureza ensina. Alem do corpo diplomático, e das deputações das cidades italianas assistiram tambem ás festas mais duas uma romana e outra trentina. No Te-Deum as suas bandeiras estiveram cobertas de crepes. O conde Arnaldene, que em 1821 foi comprometlido na conjuração de Silvio Pellico, presidia á deputação de Mantua. Era a vez primeira, passado quasi meio seculo, que voltava a ver a cidade onde a justiça austríaca lhe havia erguido uma estatua.