(Carta do sr. Meyrelles do Canto)—Sr. redactor
A carta do sr. duque de Saldanha, publicada no seu jornal de 26 de outubro findo, produziu, como era de esperar, no nosso pequeno mundo politico, grande sensação, attendendo-se á auctoridade de quem a escreveu, e também á importancia dos factos históricos que a enriquecem. A par d’essa justificada sensação appareceram reclamações de alguns cavalheiros, rectificando asserções do nobre duque, e entre essas a do sr. almirante Sartorius, protestando pela maneira mais energica contra qualquer inferência que se queira tirar de ter s. ex.ª aconselhado o nobre duque na sua chegada a Portugal, a voltar para Inglaterra, porque o seu desembarque só faria augmentar o numero das victimas. Com o mesmo intuito dos illustres reclamantes, com os mesmos desejos de que a verdade, e só a verdade historica seja respeitada, conceda-me v. que sem contestar nenhuma das asserções, nenhum dos factos publicados, eu venha entregar á publicidade o seguinte facto que poderá talvez explicar a affirmativa do sr. duque de Saldanha sobre que recahiu a explicação e protesto do sr. conde de Penha Firme. O sr. conde de Penha Firme commandando a esquadra portugueza contra o sr. D. Miguel, vendo-se em apuros por falta de pagamento dos seus soldos e dos da armada pretendeu partir para Inglaterra, e segundo até se disse e foi constante, vender ali parte da esquadra para obter meios para esse pagamento. Sabendo isto o general Valdez, depois conde de Bomfim, mandou pedir ao sr. almirante Sartorius 48 horas de praso para obter meios que evitassem áquella funesta resolução e com effeito obteve-os do sr. conde de Farrobo, que fez assim ao partido dynastico da sr.ª D. Maria II e ao systema constitucional o mais assignalado serviço. Estava talvez por isso o sr. almirante debaixo da triste impressão da partida, quando aconselhou o sr. duque de Saldanha a partir também e seguidamente seria isso mais acreditável do que qualquer outro intuito menos nobre, pois é inegavel que depois de fornecidos os necessários meios á esquadra pelo sr. conde de Farrobo, o sr. almirante desempenhou com valor e todo o interesse a missão que lhe havia sido confiada. Estes factos sendo-me confiados por pessoa de toda a respeitabilidade, pareceram-me merecer um pequeno logar a par das reclamações referidas, devendo necessariamente concluir-se d’estes factos quão importantes foram os serviços dos srs. condes de Bomfim e Farrobo pois a não terem elles comprehendido quanto compromettida ficaria a causa liberal com a retirada da esquadra, de certo outra phase teria offerecido depois a luta entre os dous principes portuguezes. Lisboa, 5 de novembro de 1866. Meyrelles do Canto.