Visita da rainha de Hespanha
Suas magestades catholicas e suas altezas reaes, o príncipe das Asturias, herdeiro presumptivo da corôa hespanhola, e infanta D. Isabel chegaram na tarde de 11 d’este mez á formosíssima capital do nosso reino e foram officialmente recebidas com todas as demonstrações de attenção e cortezia. Apezar dos aggravos que como homens verdadeiramente amigos da liberdade temos dos martyrios porque D. Isabel II e os seus ministros a leem feito passar, estimamos que a herdeira de Fernando VII fosse acolhida em Lisboa com a proverbial fidalguia da nossa patria. Recebendo os reaes hospedes como os recebeu o governo fez-se o que se devia fazer mormente sendo uma senhora, a visitante. Se com homens se deve usar da cortezia com as damas ainda mais. Mas que não fosse uma senhora o chefe de estado da nação visinha dever-se-hia tratar com todo o brilhantismo porque as festas não significam só graciosidade e deferencia para com a pessoa do rei; são mais alguma cousa—são um tributo de respeito pelo povo que o visitante representa. Longe das festas impossível nos era descrevel-as, por isso soccorremo-nos aos jornaes da capital e delles transcrevemos o que dizem a tal respeito. Ouçamos o Jornal de Lisboa: «Conforme estava annunciado, esta manhã se começou a dispor tudo para a recepção de sua magestade catholica a rainha de Hespanha. A estação do caminho de ferro de leste estava exteriormente decorada com bandeiras portuguezas, hespanholas e italianas. Pela parte interior viam-se tropheus, e pendiam colchas das janellas. Na plataforma foram admitlidas além das pessoas que officialmente iam esperar a real visitante outras que haviam recebido convite da companhia. N’aquelle local achava-se a banda da guarda municipal de Lisboa tocando differentes peças de musica. Logo pela manhã foi para defronte da estação do caminho de ferro de leste a corveta do systema mixto Bartholomeu Dias. Cerca das duas horas da tarde collocaram-se as divisões, compostas do batalhão de caçadores n.° 2, que formou á direita, regimentos de infanteria n.os 1, 2 e 7, e batalhão de caçadores n.° 5, e regimentos de infanteria n.° 10, 16 e 18 sob o commando do marechal sr. conde de Santa Maria. Toda a divisão formada em linha se achava postada desde o caes dos Soldados até o campo das Cebolas. Toda a força estava de grande uniforme e em ordem de marcha, no melhor aceio. A força montada era composta de lanceiros n.° 2 e cavallaria n.° 4. Uma parte da guarda municipal de cavallaria e infanteria coadjuvaram efficazmente toda a policia, havendo a melhor ordem. Perto das tres horas da tarde a corveta Bartholomeu Dias, que estava embandeirada nos topes, embandeirou em arco, com o pavilhão hespanhol no tope grande, subindo a marinhagem ás vergas. Foi o primeiro signal de se haver avistado o comboio que conduzia a Lisboa sua magestade a rainha de Hespanha e toda a comitiva. Assim que o comboio chegou á plataforma e se verificou o desembarque de sua magestade catholica, uma girandola de foguetes subiu aos ares. Então a marinhagem deu os tres vivas do estylo, e a corveta Bartholomeu Dias saudou a augusta visitante com vinte e um tiros. Na estação esperavam-a suas magestades D. Luiz e D. Fernando, grandes do reino, ministério e a muitas outras pessoas da corte. O sr. infante D. Augusto havia partido hontem á noite para Elvas, regressando daquelle ponto com a comitiva hespanhola. Eram nove as carruagens que conduziram a comitiva real. As primeiras carruagens eram tiradas a quatro, principiando pela dos dois ajudantes de campo d’el-rei o sr. D. Luiz e dois dos de Hespanha. O general Narvaez, presidente do conselho de ministros em Hespanha, ia com o sr. duque de Loulé em carruagem de dois logares. Em outra carruagem ia o príncipe das Asturias, herdeiro presumptivo da corôa de Hespanha. Via-se em outra a princeza de Hespanha D. Isabel. A carruagem em que ia o rei de Hespanha, sr. D. Francisco de Assis, acompanhado d’el-rei o sr. D. Fernando, era tirada a seis cavallos. Na ultima das nove carruagens via-se sua magestade catholica a rainha de Hespanha e o sr. D. Luiz. Tanto a rainha D. Isabel II como sua filha trajavam vestidos azul celeste com rendas brancas. Depois das nove carruagens luxuosas da casa real, seguiam-se outras do serviço ordinario, que conduziam alguns militares hespanhoes que faziam parte da comitiva, os ministros de estado effectivos e honorarios, e outras pessoas que fazem parte da corte. Assim que todas as carruagens da casa real passaram, indo na frente a cavallaria, a força de infanteria desfilou para os quarteis depois das quatro horas e meia da tarde. A corveta Bartholomeu Dias suspendeu logo ferro e seguiu para defronte do paço de Belem afim de se reunir á divisão. A’s cinco horas da tarde salvaram os navios da divisão fundeada em Belem por haver sua magestade catholica chegado ao paço da sua residência. A concorrência de povo era extraordinaria em todas as ruas por onde passou o cortejo, apezar do trajecto ser bastante longo. As janellas estavam todas litteralmente cheias de damas. A’ noite illuminou-se a estação dos caminhos de ferro portuguezes. A fragata D. Fernando illuminou-se brillantemente, e nas corvetas, Bartholomeu Dias, Estephania, Gago Coutinho, Pedro Nunes pozeram-se fogos de Bengala.» Agora vejamos o que se passou no dia seguinte. Diz o Jornal do Commercio do dia 12: «A recepção no paço de Belem principiou hoje a o meio-dia e terminou a uma hora dada. A guarda de honra foi feita pela infanteria da municipal que ao mesmo tempo policiava a praça de D. Fernando, formando-se do lado do palacio e por entre as quaes passaram depois as tropas em continencia. Em seguida desta revista foi feita a retirada das tropas na direcção das suas respectivas praças em linha. Extraordinária era a concorrência do povo n’aquelle local, e nem melhor podia ser ainda depois da retirada das tropas por se verificarem ahi milhares de pessoas de todas as classes, principalmente só por curiosidade. A parte do passeio do dia 11 não foi a mais vistosa do palacio e do paço de Belem. A entrada do palacio e do paço da Ajuda apresentava-se com esplendor e magnificencia. Os beijos foram mais efficazes ainda depois; isto prova que o esplendor do dia muito contribuiu para ainda mais o realçar. Em todo o caso estavam centenares de hespanhoes entre o povo, e eram conhecidos bem pelo seu modo de trajar. Pedida a licença á rainha para desfilarem es tropas, foi um ajudante de ordens chamar as carruagens com os seus cavalos. Na frente da divisão e somente acompanhado por quatro officiaes do seu estado maior, ia o sr. conde da Ponte de Santa Maria, marechal do exercito e commandante da 1.ª divisão militar. Seguiram-n’o immediatamente seis baterias de artilheria de campanha do regimento n.° 1 e a 7.ª de montanha do 4.°, todas por divisões ao passo. Apoz a artilheria passaram os regimentos de cavallaria n.° 2 de lanceiros da rainha, n.° 4 de caçadores e a municipal, todos em columnas de meios esquadrões e também ao passo. Esta brigada era commandada pelo sr. general Maldonado e apresentou-se na força de pouco mais de 700 cavallos. Seguiu finalmente a divisão de infanteria formada por duas brigadas: tal/ commandada pelo sr. general Maldonado, e composta pelo batalhão de caçadores n.° 2 e regimentos de infanteria n.os 1, 2 e 7; a segunda commandada pelo sr. general Magalhães e formada pelo 5.° batalhão de caçadores e regimentos de infanteria n.os 10, 16 e 18. Todos os corpos desfilaram por entre as alas da municipal de infanteria, em columna aberta de pelotões a passo ordinário. Diante de ss. mm. da rainha e d’el-rei de Hespanha, descobriam-se as bandeiras dos diversos corpos que passavam pela frente. A infanta D. Isabel trajava um vestido de setim preto com uma sobre saia de glacé cor de peito de rola. Broche e brincos de brilhantes, e o cabello bem penteado, mas sem enfeites alguns. A rainha vestia de branco e cor de rosa; e o sr. D. Luiz vestia-se o fardamento do batalhão de caçadores n.° 2. Assim que as tropas acabaram de desfilar, ss. mm. levantaram-se, saudaram o povo e retiraram-se.» Foi isto o que se passou pela manhã. Agora perguntamos aos leitores se tiveram noticia do que houve á noute. Diz o mesmo jornal: «A’ noite assistiu sua magestade a rainha D. Isabel ao espectaculo em S. Carlos. O exterior do theatro apresentava um majestoso effeito. Quatro renques de focos de gaz, em numero de 560, conforme no livro do passeio da fronteira e ao redor, e no lado, e em frente das armas reaes, e na balaustrada da varanda. Do lado do mar Nova do Wanyttes o theatro estava illuminado com lanternas. Eram nove horas e vinte e cinco minutos quando a rainha chegou ao theatro, e cinco minutos depois compareceu na tribuna com el-rei s. ex.ª o sr. presidente do conselho, e os ministros portuguezes. A rainha D. Maria não assistiu ao espectaculo. A rainha ao chegar á tribuna fez um galantissimo cumprimento ás senhoras dos camarotes, voltando-se para um e outro lado da sala, e depois aos espectadores da platéa. A sala apresentava um espectaculo imponente. As senhoras todas em pé, elegantíssimas, gallas das mais ricas e gallas brancas, com muitas das quaes saudavam com os seus brilhantes: os espectadores da platéa estavam quasi todos de casaca, gravata branca e luvas brancas. A decoração do theatro era verdadeiramente de luto. Duzentas e vinte e quatro luzes de gaz tinham as serpentinas collocadas nos camarotes, com 226 bicos, que tem o theatro, eram 450 as luzes que illuminavam a sala. Apenas suas magestades appareceram na tribuna, a orchestra executou a marcha nacional hespanhola, conservando-se suas magestades em pé. Finda a marcha começou o espectáculo. Na porta de entrada para a tribuna real, armou-se um alpendre todo desetim, illuminado com um renque de luzes em torno do alto da cimalha. A illuminação da franjaria e a armação do alpendre e sua illuminação foram á custa da empresa, não dependendo menos 700 a 800$000 reis as obras, e estavam bem dispostas. A tribuna real tinha cortina nova, e as salas foram de novo forradas de papel, e uma mobilia de novo. Estava esplendida. S. m. a rainha vestia de branco e côr de rosa, e requintadissimos ornatos e adereços de brilhantes. No camarote do sr. conde de Farrobo estavam as senhoras do corpo diplomatico. A’ meia-noite ainda as pessoas reaes estavam no theatro, e havia acabado o 3.° acto do espectaculo, que era o 3.° da opera os Lombardos; faltavam ainda o baile e o 5.° acto do Fausto.» Da que se passou na manhã do dia immediato dá-nos o Jornal de Lisboa noticia seguinte: «Sua magestade catholica a rainha de Hespanha foi esta manhã á grandiosa igreja dos Jeronymos, onde visitou todas as capellas ouvindo missa, acompanhada do padre Claret e de parte da sua comitiva. Finda a cerimonia religiosa, dirigiu-se sua magestade catholica ao paço da sua residência, e depois acompanhada de d’el-rei o sr. D. Luiz foi para o caes de Belem a fim de darem um passeio pelo mar. Achavam-se no caes quatro ricos bergantins e oito escaleres, que levaram suas magestades a rainha de Hespanha e o seu esposo, príncipes, e el-rei o sr. D. Luiz, e a comitiva da augusta visitante. Toda esta brilhante comitiva navegou, com as solemnidades do estilo até o Dafundo. Logo que as pessoas reaes embarcaram, salvaram os navios de guerra com vinte e um tiros, subindo a marinhagem ás vergas. Assim que chegaram ao Dafundo, voltaram para o caes e de lá a comitiva dirigiu-se para o arsenal da marinha. Ali era esperada a real comitiva pelo ministerio, major general da armada e seus ajudantes e mais alguns officiaes superiores da marinha. Dentro do arsenal estavam poucos circumstantes, por ser vedada a entrada n’aquelle estabelecimento. Sua magestade catholica e todas as pessoas da comitiva real demoraram-se pouco tempo porque se dirigiram depois á casa da inspecção, mas tiveram lá ao menos alguns minutos. Toda a familia real hespanhola e portugueza foi em carruagem descoberto pela rua Auva, rua oriental do Passeio, seguindo pela rua do Ouro, rua Nova do Carmo e Chiado até á egreja de S. Roque. Todas estas ruas estavam litteralmente cheias de povo, a ponto de um piquete de batalhão municipal, que vinha em frente, ter com difficuldade passagem para a comitiva real. Sua magestade catholica visitou com toda a magnanimidade a riquissima capella de S. João Baptista, instituida pelo sr. rei D. João V, na egreja de S. Roque, e viu tambem o estabelecimento dos expostos. Nesta visita demorou-se a comitiva cerca de uma hora e meia, saindo depois ás Ave-Marias, pela Patriarchal. A’ noite houve no Tejo o combate simulado.» Eis o que diz o mesmo jornal: «Verificou-se hontem, o combate naval simulado, em frente do paço de Belem. Achava-se no centro a fragata D. Fernando, tendo a boreste pela amura de estibordo, a corveta Bartholomeu Dias, e pelo de bombordo, o brigue Pedro Nunes; para oeste para alheia da estibordo da fragata, a corveta Estephania, e por alheia de bombordo d’esta, a corveta Gago Coutinho. A’s oito horas da noite principiou o combate simulado, entre os navios da divisão. Principiou o combate com fogos por filas, em ambos os bordos, successivamente em todos os navios; seguindo logo o fogo por divisões, a bombordo, lado do norte, e por bandas por estibordo. Depois deste soldado (D. Fernando) o combate começou a fogo á vontade, dando-se conjunctamente fogo de fuzilaria. Assim que terminou esta batalha naval, subiram os navios ás vergas, com foguetes, e deitaram todos uma salva, dando vivas a sua magestade catholica, b'rando depois uma salva geral em toda a divisão. Depois as guarnições formaram na borda dos navios, como para a abordagem, apresentando differentes fogos de cores, que mostravam lindo matiz. Foi mais uma demonstração de boa e inalteravel harmonia, que existe entre duas nações amigas, como são Portugal e Hespanha. A marinha portugueza mostrou-se verdadeira e militar, e que sabe apparecer em todo o aperto com a provada perícia, que lhe é peculiar. Concluindo o combate dirigiram-se ss. mm. á Ajuda, onde teve logar um esplendido baile. Hoje pelas 12 horas do dia, em comboio partiram os srs. D. Luiz e D. Fernando para os sms. acompanharam os reaes Catholicos de Hespanha até á estação dos caminhos de ferro. O que desejamos é que a familia real hespanhola conserve gratas recordações d’esta terra, berço da tolerância, e couto da liberdade na peninsula.»