Aljustrel 9 de dezembro de 1866
Sr, redactor.—Ha de haver dez annos, que as cunharias desta freguezia foram extinctas e os seus rendimentos applicados para a casa pia d’essa cidade. Por este facto ficaram os respectivos templos em miserável abandono e desamparo, por lhes ser tirados os recursos de que podiam dispôr, e como consequencia foram cabindo em ruínas as egrejas de N. S. do Castello, e de Santo Antonio. Mas o que a lei da extincção não providenciou, providenciou a piedade religiosa dos fieis; e neste sentido, foi creada, em ha pouco, na villa de Aljustrel, uma commissão composta dos srs. Joaquim Pedro de Sousa Pincão, presidente —Romão Lhão Fernandes, thesoureiro —Reverendo prior Lourenço José de Matos, Antonio Joaquim Godinho de Barahona, vogaes—Antonio Teixeira dos Santos, secretario, para examinar o estado de ruína da egreja de N. S. do Castello, proceder ao orçamento das despezas necessárias para a sua conservação e á acquisição dos meios necessários, por meio de esmolas e [ilegível]. Esta commissão desempenhou com zelo e actividade como se vê das obras feitas, o encargo a que voluntariamente se votou; terminando a pintura das terras hontem de manhã, procedeu de tarde o reverendo paroch o á benção da egreja, sendo acompanhado n’esta solemnidade pelo reverendo vigário da vara, o sr. padre Frederico Guilherme Ramos Cid, e pela philharmonica desta villa.—Concorrendo tambem a maior parte da população. Hoje teve lugar a procissão de regresso de N. S. do Castello para a sua egreja, onde se celebrou missa solemne com instrumental, e orou o reverendo prior de Matos; a esta assistiu toda a gente da villa e sua vizinhança, que por doença, ou outra causa legitima não estava impossibilitada. A oração que o reverendo amador proferiu agradou a todos; combateu elle a indifferença religiosa, mas fê-lo, com tanta candura, e com argumentos tão palpáveis e adaptados ao facto que se acabava de praticar, e n’uma linguagem tão correcta e clara que, sem receio de errar, ouso affirmar que foi por todos comprehendida. Para se ser religioso não é necessário ser fanático. Para se amar a Deus não é preciso incutir no animo do povo os horrores do inferno com que elle nos ha de castigar... Pois não se ama pela dor. Este povo é religioso; fanatismo não lhe diviso. As obras que agradam a Deus tenho-lhas visto praticar. Vi-o concorrer para minorar as desgraças das victimas da febre amarella, vi-o contribuir para as desgraças que em Cabo Verde lutaram com a fome, vi-o hoje, finalmente, concorrer abundantemente para a reparação dos templos onde se presta o culto a Deus. Bem haja pois á illustre commissão que tão energicamente desempenhou a missão que se impuz, e a todos os que com suas esmolas concorreram para tão piedoso e util fim. A egreja de Santo Antonio já se acha também reparada e bastante adiantada a sua pintura. Os dignos festeiros juiz e thesoureiro, o sr. padre Frederico Ramos Cid, e o sr. Francisco Manilhas são dignos de louvor, pelo zello que n’esta obra teem desenvolvido. Quando não é illudida a applicação do obulo do povo, quando os que tomam a iniciativa em obras d’esta teem uma reputação illibada, e se lhe nota a honestidade, como norma da sua vida publica e particular, o resultado é o que aqui se deu com a reparação e ornamento d’estes dois templos. Um observador