Moura 6 de dezembro de 1866
Sr. redactor.—Os lavradores d’este concelho que maldiziam já a sua sorte, porque viam nascidas mas enfesadinhas as poucas sementes que haviam deitado á terra, deixadas pelos damninhos passares, que teem a admirável prespicacia de as desenterrar, acham-se já mais animados depois das chuvas que caíram, porque os campos já apresentam uma especie de panorama agradavel. É certo que, como observámos antes da chuva apparecer, as arvores, afinal, se divisavam; isto era por cá onde as terras são de outra tempera do que as de outras partes, e que difficilmente supportaram uma secca. Soube-me por um conhecido lavrador que, elle mesmo lançando á terra 20 alqueires de semente apenas agora tem apparecido alguma nascida, não excedendo a 4 ou 5 alqueires approximadamente. E com estas notícias que pronosticavam um anno de ruim colheita, por um hoje teem melhores esperanças, devidas á mudança do tempo. Se a chuva vier com a mesma divisão e brandura como a que ultimamente veio, será de certo para os campos d’este concelho, um optimo adubo com o que todos poderão folgar; e talvez, atrevome a dizel-o, os monopolistas de searas. Estes campos parecem em geral pouco productivos; porem havendo uma soffrivel colheita pode dar para exportação, posto que em pequena abundancia. Parece o seu solo bem inferior e de pouca fertilidade; todavia temos notado que todas as plantas n’elle são bem creadas, e que produzem mais que regular, sendo os seus fructos magnificamente grandes. O que é pena é que não haja quem se tenha dedicado ao seu fabrico, e plantado arvoredo; pois apenas aqui ou além se vê uma ou outra arvore, bem como hortas, etc. Desejava sobre isto ter alguma instrucção; pois então poderia mais ampla e efficazmente fallar; mas com tão poucos predicados cumpre-me deixar o campo aos seus verdadeiros proprietários; e elles que com todos os cabedaes da sciencia sabem planear e pôr em execução seus projectos. J. F. B. Bravo.