Noticias de Mertola
O nosso zeloso correspondente escreve-nos, em data de 4 do corrente, o seguinte: Começaremos por dizer que o arco das portas de Mertola, ao norte, foi demolido; e dentro da villa já entram carros e toda a especie de vehiculos, que não entravam desde Miramolim José; ou desde seculos anteriores a 1139 em que o famoso rei D. Affonso Henrique derrotou os 5 reis sarracenos companheiros de Ismael, nos memoraveis Campos d’Ourique, em que só este ficou para contar. O largo do Terreirinho—o mais famoso e mais publico de Mertola, que parecia desde esses ominosos tempos jazer ao desamparo de todos e de tudo—cheio de barreiras, de moledos pedragosos, e privado de toda a decente compostura acha-se reedificado, e o mais possivel aplanado; contem cadeirões de alvenaria e mármore para os pacientes descançarem nas bellas tardes de primavera e outono quando os dardejantes raios de Febo baixam ao sepulchro do occaso. Ficou um lindo largo ao qual só falta uma almêda. Tudo isto se deve á boa camara do biennio de 1865 a 1867, mas com toda a especialidade ao digno presidente o ill.mo Jacintho José da Palma dos Boisões, cujo zelo que tem mostrado por este povo, durante a sua presidencia é digno de louvor, chegando muitas vezes a abonar dinheiros seus adeantadamente para obras e outros pagamentos. Não desista pois o sr. Palma do seu bom proposito, que o bem e o mal nunca passam desapercebidos;—lucta-se muitas vezes com difficuldades, e até com detractores, mas tudo desapparece e só fica o bem publico por testemunha da verdade, e memória de seus authores. As necessidades internas n’este povo são muitas, apontaremos porem as mais urgentes:—calçadas—um poço—o caminho para a fonte das Neves e dos moinhos d’agua—caminho do Terreirinho a santo Antonio e S. Sebastião—do arrabalde ao porto pela Carrissa, são de momentosa precisão, e esperamos que a ill.ma camara as não olvide. Começou finalmente a estrada entre Mertola e o monte da Célia, cujos trabalhos teem á testa os srs. Ludovino, Campos, e Figueiredo; e com quanto os trabalhos nas primeiras 3 semanas só começassem em dois pequenos partidos, e só admittissem uns 40 a 50 homens, consta-nos que em breve seguirão com mais vigor outras muitas empreitadas. Nutrimos pois esperanças de que, rão longe, o Algarve, Andaluzia, Cambas, e os transeuntes de norte a sul portuguez poderão caminhar n’uma diligencia, que indubitavelmente correrá da quino dia em que a estrada se abrir á circulação. Felicitamo-nos pois, e tributamos um voto de agradecimento ao ex.mo ministro das obras publicas, e ao illustre director das mesmas n’este districto. A obra é de subida utilidade generica, e com ella nenhuma necessidade resta de caminhos de ferro ao sul de Beja—poupe-se tudo isso que é uma vantagem nas actuaes circumstancias em que nada se deve nem pode esperdiçar. Tambem haverá navegação a vapor entre Mertola e Villa Real de Santo Antonio (para o que já tractam de associar homens), uma vez que se saiba que a via ferrea não continua para o Algarve,—Não se temem vãos nem inconveniente algum, porque havendo, como ha, duas marés em cada 24 horas, aproveita-se o cheio d’ellas para as entradas e saidas do vapor ou vapores que depois ser de pequena lotação. Isto é o que se tem combinado, mas não se dão providencias sem constar uma definitiva resolução do governo, de não seguirem com o caminho de ferro algarvio, essa desgraçada obra, mal combinada e mal principiada; se bem que esses trabalhos podem ser aproveitados n’uma estrada a macadam, o que tão sómente devia ser, e era bastante para aquellas localidades de extensas serranias sem interesse vital nem commercial. —A mina de S. Domingos, diz-se que, não dará este anno, para os cofres do estado, menos de trinta e tantos contos!—Conseguintemente o concelho de Mertola merece uma estrada?... E merecia um caminho de ferro, com indizivel vantagem de tudo e de todos; e a mina tambem merece protecção. —Ha poucos dias Antonio Delgado, estabelecido na mina de S. Domingos, caminhou sobre um barreteiro, que ausentando-se, lhe não pagára certa quantia que lhe devia e encontrando-o á Penad’agui, junto ao Guadianna, ali o assassinou, lançando-o á agua. O morto era d’Ameixial, concelho de Loulé.—O assassino anda fugitivo. Foi preso um outro individuo, que para ensinar-lhe os caminhos acompanhava o dito Delgado. —Falleceu o sr. Nuno José da Fonseca, professor de instrucção primaria n’esta villa—rapaz de 22 annos, e de belissimas qualidades—deixou geral sentimento.—Acha-se a cadeira vaga. —A semana passada falleceu um sujeito da aldeã do Espirito Santo d’este concelho, d’um pleuris; e o reverendo prior d’aquella aldeã, o sr. Medeiros, não consentiu que o cadaver fosse sepultado sem exame e authopsia de facultativos; por suspeitar que o sr. Monteiro, ali sangrador, o tivera envenenado com medicamentos mal applicados. Foi a justiça, administrativa e judicial, e o sr. dr. Valente, medico, em S. Domingos, que procedendo a authopsia do cadaver (que já tinha 4 dias de morto) e ao exame de receituario e medicamentos restantes declarou diante do auditório, que todos aquelles remedios juntos bebia elle facultativo d’uma só vez sem que lhe causassem algum mal—que o individuo morreu pela gravidade da doença, da qual nenhum remedio o salvaria—isto é o que se diz; e por esta forma ficou (dizem tambem) o sr. Medeiros triste e o sr. Monteiro alegre—cousas do mundo. Agora, creio que, em recompensa o sr. Monteiro atiça fogo ao sr. Medeiros, por este se negar a baptizar um exposto, allegando que não era da sua freguezia, ou o quer que seja—o grande caso é que já tem vindo tantas testemunhas a depor sobre este ultimo facto, ignorando-se por ora qual será o resultado—creio que nenhum, aterrador. Duas palavras porem sobre aquella gente:—A freguezia do Espirito Santo tem sido sempre de paz e de mansos cordeiros—hoje ainda tem boa gente, mas a paz ahi está alterada—as ovelhas são as mesmas, os pastores são outros—em quem irá? Temos amigos naquella freguezia, e o reverendo prior é um d’elles: desejavamos pois que este cavalheiro se collocasse n’uma posição conciliadora: que chamasse os seus freguezes á ordem: que os obrigasse o honrado juiz eleito a assignar representações; que não negasse absolvição aos freguezes quaresmaes que não podiam ou não queriam comprar bulia, pois que não é obrigação legal, e sim moral.—O bom e cordato pastor leva o rebanho aonde quer e sabe leval-o; com aspereza embravece e espanta os mesmos cordeiros, que extraviando-se podem ir destruir-lhe a sua propria seara. Sentimos pois que o desassocego ali lavre, produzindo já: authopsias, corpo de delicto, processos e ausencia e marcha forçaria do reverendo prior, que uns dizem foi para Beja, outros para Lisboa, queixar-se—não sei de quem, e nem porque—talvez de si mesmo. —Falleceu o reverendo prior d’esta villa o sr. Antonio Guerreiro.—Sentimos. Já será fastidiosa a correspondência, e por isso basta por hoje. • • •