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Portimão · Portugal Correspondência · Igreja

Em data de 6 do corrente diz-nos o nosso correspondente: Reina a esterilidade de noticias, e não admira. Quem não tem não póde dar: acontece sempre assim ás terras pequenas, com tudo tambem tem suas epochas de mais ou menos vida, e mais ou menos desenvolvimento commercial. A’s terras importantes tambem acontece o mesmo, e com razão disse um viajante de bom gosto, quando se tratava da apreciação de villas, cidades e suas importâncias commerciaes: «por cá e por lá más fadas ha.» Fallar pois, da vida mais ou menos regular d’este ou d’aquelle empregado, que não cumpre com os seus deveres, deixando commetter abusos nas repartições inherentes a seu cargo, perdeu-se de moda, nem com isso ganhavamos mais do que um inimigo, porque os homens são o que são, e não o que deviam ser, e quem quizer endireitar o mundo está perdido. Descrever uma ou outra obra, que não foi bem planeada, e que caminha a passos morosos, com isso tambem não adiantamos nada, porque é clamar no deserto; no entretanto em outra occasião mais opportuna, gastaremos alguns minutos sobre este assumpto. Por agora entreter-nos-hemos com os curas d’almas, com esses pastores espirituaes, que teem a seu cargo conduzir ao aprisco santo as ovelhas do seu rebanho. Seremos hoje com elles, e para elles chamamos ardentemente a attenção do ex.mo prelado d’esta diocese. É grande e tão grande a falta de caridade em alguns d’elles, que não desejando occuparmo-nos com aquelles que deviam ser a luz do mundo, e o sal da terra, não podemos deixar de o fazer. Ha tempos presenciamos n’uma cidade d’esta nossa provincia um facto, que nos encheu de horror e dó, quando vimos um homem, que nos parecia moribundo em cima d’um jumento, e amparado dos lados por dous sacos cheios de palha. Perguntámos com bastante commiseração para onde transportavam aquelle homem, que parecia quasi cadaver, porque viam-se-lhe mover as pernas no pescoço do jumento, e responderam-nos que ia para o cemiterio. A’ vista de similhante resposta compungiu-se-nos o coração, gelou-se-nos o sangue, e as lagrimas sentidas banharam-nos as faces, por vermos os restos mortaes d’um nosso irmão tão desconsiderados!! Donde procederá pois esta aberração de caridade? Donde procederá esta falta de respeito e veneração, para com um cadaver, que nos faz lembrar o fim que nos espera? Procede dos parochos, que pela maior parte se transviam do verdadeiro caminho, dos parochos que pela maior parte se tornam de pastores, e da luz do mundo e sal da terra em espessa cerração, e em fé que faz cecar nas creaturas mais perfeitas que Deus creou, a caridade, essa virtude por excellencia, que vae á choupana do pobre, ao escabêllo do cárcere dulcificar a triste sorte do desgraçado. Se o parocho não prostituisse a sua missão, e fosse o que devia ser, aconselharia a caridade, e promovel-a-ia até, para senão darem factos semelhantes, que devem cubrir de vergonha aquelle em cuja parochia se dão e com muita frequencia. Pedimos pois ao nosso ex.mo prelado, que recommende aos parochos d’este bispado a caridade e zelo pelas cousas religiosas, que são a fonte donde dimana a verdadeira civilisação. O homem sem religião está habilitado para tudo e qualquer crime. Não são as leis do mundo o dique que verdadeiramente contem o homem, é mais alguma cousa: é a religião como a nossa, que manda amar a Deus, e ao proximo como a nós mesmo. É pois este amor divino e humano que falta a uma grande parte dos nossos parochos, em cuja escolha teem sido pouco escrupulosos os prelados. Se hoje voltasse ao mundo o grande frei Bartholomeu dos Martyres, esse homem dotado d’uma caridade verdadeiramente evangelica, que não diria do nosso clero, que a cada passo cava o seu proprio abysmo!? Servir-se-ia das palavras que proferiu no concilio de Trento: «O clero precisa d’uma iminentissima e reverendissima reforma»; não: empregaria mais superlativos se possível fosse, pediria até a extincção d’elle todo, para arranjar outro de novo, visto que o actual, salvas honrosas excepções, é um cancro, que corrompe a sociedade, em lugar de com o seu exemplo a moralizar, e a desviar do precipicios em que se acha constantemente.