Chegada
No domingo chegou a esta cidade o digno juiz de direito da comarca o sr. dr. Antonio de Almeida de Souza Novaes.
No domingo chegou a esta cidade o digno juiz de direito da comarca o sr. dr. Antonio de Almeida de Souza Novaes.
A noute passada foram os moradores d’esta cidade acordados por um fortíssimo furacão. Algumas casas soffreram bastante. Nos olivaes e hortas os estragos são grandes.
Trabalhou no domingo no theatrinho do sr. Sousa Porto a companhia Vergara. Alguns dos artistas receberam applausos.
Na de Beja desde 1 de abril até 19 do passado fizeram-se 338 registos, sendo de domínio 50, de hypotheca 174 e de onus reaes 114.
Na mesma conservatória e em egual tempo os emolumentos sommaram 357$380 reis.
No domingo proclamaram-se nas freguezias da cidade: Francisco Antonio, com Maria das Dores, solteiros.
Por accordam d’este tribunal foram julgados quites para com a fazenda publica pela sua gerencia desde 1 de julho de 1863 até 30 de junho de 1866 o presidente e vogais do conselho administrativo do hospital militar do regimento 17 de infanteria.
Ao sr. Affonso Gomes foi feita concessão provisoria das minas de manganez situadas no serro do Casarão, concelho de Mertola, e serro do Laboreiro, concelho de Aljustrel, n’este districto.
O dia de domingo apresentou-se lindo mas frio. Na segunda feira, ao annoitecer, houve uma grande trovoada, e desde então que chove copiosamente.
No nosso terceiro artigo, pagina 2.ª, linhas 72 onde se lê auctorisar o etc. lea-se auctorisou o etc.
No anno economico de 1866 a 1867 a despeza com os expostos d’este districto foi de 13:210$275 reis.
Recebemos e agradecemos o primeiro numero de um hebdomadario politico assim denominado, que se publica na Guarda. O Eytaniense substitue o Pharol da Beira. É seu redactor principal o sr. Antonio José de Carvalho e entre os differentes collaboradores brilha o nome do mimoso e intelligentissimo João de Deus. Que tenha longa e prospera vida é o que desejamos ao novo collega.
O reitor do lyceu de Santarem vai representar ao governo para dispensar do serviço do jury os professores, e faz muito bem, porque nos lyceus onde não ha substitutos, perde muito a instrucção com isto. Lembravamos ao digno reitor do lyceu desta cidade fizesse o mesmo, pois acontece interromperem-se ás vezes por espaço de 20 dias e mais 3 e 4 aulas. É pois justissima a representação e o digno reitor d’este lyceu, que tanto zelo mostra pela instrucção não deixará de levar ao conhecimento do governo a necessidade que ha em serem dispensados do serviço do jury os professores dos lyceus de segunda classe.
No anno de 1865 foram feitas, n’este districto ao banco hypothecario, 211 propostas de emprestimo na importancia de reis 97:818$000. No anno de 1866, 20 na importancia de reis 91:818$000. E durante o mez de janeiro d’este anno 3 na importancia de reis 1:450$000. Total 191:086$000.
No dia 20 do corrente abrem-se as audiencias geraes d’esta comarca, no corrente semestre. Ha causas interessantes a julgar.
O da setima divisão militar acha-se ha dias n’esta cidade.
Por falta de espaço não publicamos n’este numero a importante noticia do nosso correspondente de Portimão, de 14 do corrente, mas irá no n.º seguinte e bem assim uma poesia, que nos mandaram de Lagoa relativa ao caes de Portimão e que achamos excellente. A correspondencia de Lisboa não vae n’este numero por a havermos recebido hoje e bastante tarde.
O que se vae ler é contado pelo Internacional de Londres: Em um tribunal d’aquella capital foi julgado John Smith que roubou um joalheiro de High-Street. O ladrão abrira na parede um buraco bastante largo para poder entrar n’elle a parte superior do corpo, e estendendo o braço roubou tudo o que estava em uma tabuleta ou vitrine. O advogado do réo teve a singular idea de defendel-o dizendo que a lei punia quem se introduzia em uma casa, mas não quem mettía n’ella somente meio corpo. O jury, depois de alguns minutos de deliberação declarou com a maior seriedade, que o busto de João Smith era culpado, mas que a outra metade do corpo era innocente. Então o juiz condemn ou dogmaticamente a metade culpada a um anno de trabalhos forçados, deixando a Smith a liberdade de separal-a da metade innocente ou de leval-a comsigo para o logar onde será expiado o crime.
Por ordem superior foram mandados suspender os fiscaes aferidores dos concelhos de Aljustrel, Cuba, Alvito, Vidigueira, Barrancos, Ourique, Castro Verde e Ferreira. Parece que esta medida é puramente economica.
Chamamos a attenção de s. ex.* para a noticia que nos dá o nosso correspondente de Portimão.
Em data de 6 do corrente diz-nos o nosso correspondente: Reina a esterilidade de noticias, e não admira. Quem não tem não póde dar: acontece sempre assim ás terras pequenas, com tudo tambem tem suas epochas de mais ou menos vida, e mais ou menos desenvolvimento commercial. A’s terras importantes tambem acontece o mesmo, e com razão disse um viajante de bom gosto, quando se tratava da apreciação de villas, cidades e suas importâncias commerciaes: «por cá e por lá más fadas ha.» Fallar pois, da vida mais ou menos regular d’este ou d’aquelle empregado, que não cumpre com os seus deveres, deixando commetter abusos nas repartições inherentes a seu cargo, perdeu-se de moda, nem com isso ganhavamos mais do que um inimigo, porque os homens são o que são, e não o que deviam ser, e quem quizer endireitar o mundo está perdido. Descrever uma ou outra obra, que não foi bem planeada, e que caminha a passos morosos, com isso tambem não adiantamos nada, porque é clamar no deserto; no entretanto em outra occasião mais opportuna, gastaremos alguns minutos sobre este assumpto. Por agora entreter-nos-hemos com os curas d’almas, com esses pastores espirituaes, que teem a seu cargo conduzir ao aprisco santo as ovelhas do seu rebanho. Seremos hoje com elles, e para elles chamamos ardentemente a attenção do ex.mo prelado d’esta diocese. É grande e tão grande a falta de caridade em alguns d’elles, que não desejando occuparmo-nos com aquelles que deviam ser a luz do mundo, e o sal da terra, não podemos deixar de o fazer. Ha tempos presenciamos n’uma cidade d’esta nossa provincia um facto, que nos encheu de horror e dó, quando vimos um homem, que nos parecia moribundo em cima d’um jumento, e amparado dos lados por dous sacos cheios de palha. Perguntámos com bastante commiseração para onde transportavam aquelle homem, que parecia quasi cadaver, porque viam-se-lhe mover as pernas no pescoço do jumento, e responderam-nos que ia para o cemiterio. A’ vista de similhante resposta compungiu-se-nos o coração, gelou-se-nos o sangue, e as lagrimas sentidas banharam-nos as faces, por vermos os restos mortaes d’um nosso irmão tão desconsiderados!! Donde procederá pois esta aberração de caridade? Donde procederá esta falta de respeito e veneração, para com um cadaver, que nos faz lembrar o fim que nos espera? Procede dos parochos, que pela maior parte se transviam do verdadeiro caminho, dos parochos que pela maior parte se tornam de pastores, e da luz do mundo e sal da terra em espessa cerração, e em fé que faz cecar nas creaturas mais perfeitas que Deus creou, a caridade, essa virtude por excellencia, que vae á choupana do pobre, ao escabêllo do cárcere dulcificar a triste sorte do desgraçado. Se o parocho não prostituisse a sua missão, e fosse o que devia ser, aconselharia a caridade, e promovel-a-ia até, para senão darem factos semelhantes, que devem cubrir de vergonha aquelle em cuja parochia se dão e com muita frequencia. Pedimos pois ao nosso ex.mo prelado, que recommende aos parochos d’este bispado a caridade e zelo pelas cousas religiosas, que são a fonte donde dimana a verdadeira civilisação. O homem sem religião está habilitado para tudo e qualquer crime. Não são as leis do mundo o dique que verdadeiramente contem o homem, é mais alguma cousa: é a religião como a nossa, que manda amar a Deus, e ao proximo como a nós mesmo. É pois este amor divino e humano que falta a uma grande parte dos nossos parochos, em cuja escolha teem sido pouco escrupulosos os prelados. Se hoje voltasse ao mundo o grande frei Bartholomeu dos Martyres, esse homem dotado d’uma caridade verdadeiramente evangelica, que não diria do nosso clero, que a cada passo cava o seu proprio abysmo!? Servir-se-ia das palavras que proferiu no concilio de Trento: «O clero precisa d’uma iminentissima e reverendissima reforma»; não: empregaria mais superlativos se possível fosse, pediria até a extincção d’elle todo, para arranjar outro de novo, visto que o actual, salvas honrosas excepções, é um cancro, que corrompe a sociedade, em lugar de com o seu exemplo a moralizar, e a desviar do precipicios em que se acha constantemente.
Em data de 12 de novembro diz-nos o nosso correspondente: Obras publicas—As mais importantes noticias da semana é o incremento que se manda dar ás obras da estrada entre Mertola e o monte da Cella, e os 43:598$620 reis para a construcção do lanço entre Algodor e Cella. É medida importante por qualquer maneira considerada, quer pela necessidade da viação, quer pela urgencia de dar trabalho a milhares de desgraçados que vivem d’ella. Trabalhos—Consta que na mina de S. Domingos admittem mais uns 100 homens nos trabalhos da corta como elles lhe chamam. É um auxilio n’estes sitios de tanta gente trabalhadora. Presos—Já deve estar preso n’essa cidade o soldado de infanteria 17 João Augusto—aquelle que quiz divertir-se um dia a passar a cacete tudo que encontrou nas ruas da povoação da mina de S. Domingos. Dizem-nos que o sr. tenente Valente, seu commandante, o mandara enganado a titulo de diligencia. Já é ter força moral, e confiança na disciplina!... Acha-se preso na cadeia d’esta villa o irmão e companheiro Antonio Augusto, faltando porem Francisco Lamprea, tambem soldado, que não tem menos criminalidade, e toda a povoação da mina lhe pede o castigo, porque pareciam tres feras atacadas de hydrophobia a morder a humanidade, sem respeitar policia nem obedecer a superiores. O sr. administrador d’este concelho não se descuida no cumprimento de seus deveres, quando por tal forma a ordem é alterada. S. s.ª mandou o seu escrivão syndicar á mina, e cremos que os delinquentes estão mettidos em processo. Para barbaros é o castigo uma necessidade, com que muito lucra a sociedade. Mau systema—Na mina de S. Domingos hão estabelecido um systema que se não harmonisa com o regular andamento do proficuo e licito commercio. O individuo ali, com raras excepções, come, bebe, veste e calça a credito de 30 dias, ainda mesmo que tenha as algibeiras recheadas de libras, de sorte que taes devedores quanto tencionam mandar-se mudar, quer tenham muito quer pouco dinheiro, mudam-se sem dar cavaco aos credores, deixando um calote geral em todas as casas de credito. Este modo de negociar tem arrastado quasi todos os que se tem ali ido estabelecer, e os que o não estão, espera-os um egual futuro, por ali não se tratar senão de comer, beber e trapacear, systema que traz comsigo muitas vezes resultados de sevícias e funestas consequencias. Não vae distante que um d’estes comedores deu ás de Villa Diogo com quatro libras de divida, o credor caminhou sobre elle e encontrando-o ao passar o Guadiana ahi se pagou tirando-lhe a vida, talvez por não dar tempo a que o devedor lhe pagasse n’esta mesma moeda. E senão ha d’estas todos os dias é porque a empreza não tolera muito os desordeiros dentro das suas demarcações; do contrario a heterogeneidade de um pessoal todo alheio e de duvidosa moral e costumes não se continha ainda tanto nos limites da ordem. Obras municipaes—Mertola vae dando passos na ordem da civilisação—vae calçando os seus largos e ruas, e tambem se estenderá ás avenidas. A estrada em construcção deve tambem ser um elemento de prosperidade para esta terra, na posição em que ella se acha. O sr. Jacinto José da Palma é um presidente de mérito: já o lemos dito, e repetiremos mil vezes, porque o louvor não é mais do que a justa paga de boas acções e bons serviços. O concelho de Mertola tem pessoal, mesmo ruralmente faltando: ha porem no campo dois cavalheiros que pela sua independencia, pela sua esclarecida razão e nobres qualidades humanitarias nunca devem deixar de fazer parte da camara municipal—pelo meu voto sempre o seriam. Saude publica—O anno de 1867 foi mau de producções cereaes, mas de saude é o melhor de que nos recordamos. Mortes quasi nenhumas, e doenças apenas algumas intermitentes. Os boticarios não dirão bem d’elle. Prior—Temos o revd.° Urbano Madeira da Costa, despachado prior de Mertola. Felicitamos s. s.ª e desejamos-lhe feliz provir. A freguezia rende, mas é trabalhosa; e o sr. Urbano está pesado, tendo por coadjuctor o sr. padre Antonio Joaquim de Brito, tambem em decadencia pelos annos e pelos padecimentos. O sr. Urbano tem assim que luctar com algumas difficuldades, por cousas, que só o tempo descobrirá. Perdemos o sr. prior Guerreiro, que tinha o defeito de ser demasiadamente bondoso e ter o coração de um anjo; ninguém negará estas qualidades áquelle santo homem e por aqui ha hoje defeitos que se assemelham a maus costumes, que talvez o sr. Urbano não queira tolerar religiosamente fallando. Eis pois a causa primordial d’onde podem surgir desgostos áquelle sr. Aqui ficamos por hoje. S. G.
Eis o que nos diz outro correspondente: Como facto de grande merecimento não posso deixar de principiar pelas solemnidades que por cá houve na noite e dia de S. Martinho. Os irmãos do deus Baccho são os que compõem a irmandade. Formam-se em alas de tochas accesas, uns tocando, outros cantando, percorrem as ruas da villa, visitam os estabelecimentos de bebidas espirituosas e formam por consequência uma vozearia capaz de accordar todos a quem o sumo da uva conduz a um estado de somnolencia irresistivel. Está visto pois que para aquelles não ha paixões que os detenham, nem mau anno que os atemorise. Respeitáveis executores de velhas usanças! Chegada—Hontem chegou aqui o ex.mo sr. Eduardo das Neves Cabral, engenheiro de minas. Lá partiu para a de S. Domingos. Obras—Sentimos prazer em ver o impulso que o governo está ordenando se dê ás cousas d’onde os necessitados possam auferir os meios de subsistencia—que n’um anno de tão mau caracter, como é este, tão caro custam. O Bejense chegado aqui no domingo trouxe-nos o edital da auctoridade administrativa d’essa cidade convidando a todos os que quizerem trabalhar nos que, por iniciativa do ex.mo governador civil foram proporcionados á classe mais infeliz da sociedade. Trabalho—Ouvi dizer, ha dias, que a empreza da mina de S. Domingos vae admittir muitos braços nos trabalhos da mesma mina, e que, havendo pouca affluencia, apesar da voz que fizeram propalar, recorre-se a despedir muitos operarios empregados no Pumarão afim de que estes procurem que fazer em S. Domingos. Não garantimos a veracidade d’este facto; porem asseveramos que elle é do dominio publico e que corre com visos de verdade.
O relatório official francez diz que no combate de Mentana entraram 3 mil pontificios e 2 mil francezes. Os pontificios tiveram 20 mortos, e 123 feridos; os francezes 2 mortos e 28 feridos; os garibaldinos 600 mortos e feridos. Em proporção fizeram proezas heroicas. Diz-se que Menabrea enviou uma circular sobre a questão romana pedindo que se convoque uma conferencia europea. Os francezes occuparam Viterbo.
Os democrata venceram as eleições de New-York e New-Jersey. Os republicanos venceram as de Massachusetts por uma pequena maioria.
Ha completo socego n’esta cidade, e nos demaes districtos. Já foram levantadas todas as linhas telegraphicas cortadas pelos insurgentes, achando-se actualmente restabelecidas todas as communicações que se achavam interrompidas entre os estados pontificios e levantadas na Europa. Aqui crê-se geralmente que as tropas francezas se retirarão até ao fim do mez.
A ordem não tomou a ser alterada não obstante estar agitado o espirito publico.
Parece terminado todo o motivo de receios entre a França e a Italia. O «Moniteur» annunciou que o imperador está completamente satisfeito da espontânea retirada das tropas italianas do territorio pontificio, também ordena que a expedição franceza recolha á França logo que a ordem publica esteja restabelecida no mesmo territorio pontificio.