Theatro
Cantou-se no domingo El tio Caniyitas. Não sendo uma scena de costumes pcrMLilnenIe desenhada, soube o sr. Ortiz dar-lhe relevos lues e toques tão de mestre, que todos a julgámos n'aquelle momento completissima e inexceedivel. O cigano é assim. É o sr. Ortiz tal qual o vimos. As gerações vagabundos d'essa raça infeliz, esses cinco milhões d'homens sem patria, sem lar, que caminham sempre como o judeu da lenda, sem saber para onde, essas familias de leprosos moraes, que vivem perdidos no meio das cidades do mundo sem um lugar sequer na eucharistia das civilisações, incarnaram-se admiravelmente n'aquelle excellente actor. A astucia, a miséria, a fatalidade do destino, a alegria tradicional nas occasiões solemnes, a coragem, a agilidade, a arte da seducção, esses tons todos, em que o cigano sabe afinar como ninguem, se apresentou o sr. Ortiz sempre naturalmente, sempre cigano. O traje, os gestos e as posições fariam a fortuna do pintor que lhas copiasse. Roubou as originalidades ao cigano, e vestiu-se com ellas physica e moralmente. Cremos que o sr. Ortiz, n'aquellas duas horas de scena, daria um bello aldeador. A imprensa faz hoje o que o publico fez no domingo. Applauso do seu lugar. De resto, a não ser a modça que é bem adaptada, a Lizanda pouco vale. É um pretexto para apresentar o protagonista. A introducção do inglez é fria e chistosa e não teria mesmo alcance nenhum comico se não fosse a sr. Diez, que sabe sempre arrancar gargalhadas á platéa. O publico rio da singularidade do inglez como rirá das suas hypocrisias beatas, se elle fizer um dia o papel de turco, por exemplo. Emquanto á prima-dona e ao tenor, sabem todos que elles cantam sempre muito bem. O que é certo é que o publico bejense conhece hoje o typo do cigano, como se tivesse vindo na Andaluzia, graças ao sr. Ortiz. Quando se falla d'esta raça desfavorecida, d'este povo de proscriplos, vem naturalmente ao espirito uma grande curiosidade, como aquella que costuma vir sempre que ha grandes mysterios. Nada com effeito ha mais mysterioso do que o passado d'esta pobre gente. Nas grandes meadas d'erudição, em que se tem perdido tecer a historia d'esta raça, ainda se não atou com um fio assaz seguro, que verifique bem de fio d'Ariadne no labyrintho d'estas incertezas historicas. Se não escrevessemos apertadissimos limites d'uma local, haviamos de fazer aqui inventario de quantos segredos se teem armecido no meio das torturas impostas ao silencio dos documentos e ás mentiras da tradição, que se não falla nunca, como uma mulher, mas que mente muito. Além do Caniyitas deu-nos mais, no domingo, a companhia a zarzuela Casado y soltero em que a sr. Rima (D. Luiz*) e o sr. Diez andaram muito bem aquella no papel de velha pretenciosa, e este no de creado. Para a noite ser completa o habil violino o sr. Macedo, n'um dos intervallos, preparou-nos uma surpresa—tocou um lindo vallz que agradou bastante já pelo bem escripto d'elle, já pelo modo como foi desempenhado. O publico applaudindo-o não fez senão justiça. Terça feira repetiu-se a Marina. Tendo já escripto sobre o desempenho d'esta bella zarzuela escusado é fazel-o. Todavia mencionaremos o sr. Castillo que cantou admiravelmente. Póde dizer-se que foi a noite em que tem estado mais feliz. O publico applaudindo-o em todos os trechos que desempenhou. Fechou o espectaculo o sainete Astúcias de un tramposo, em que os sr. Torres e Ortiz tiveram a platéa em completa hilaridade. A pedido, os srs. Ortiz e Castillo cantaram a mimosa habanera Alma mia, que lhes valeu uma chamada fóra. Hontem tivemos El juramento. O seu desempenho não foi inferior ao da vez primeira que a companhia nos deu tão bella zarzuela. Não faltaram applausos. Amanhã é o beneficio da sr.ª Nieves Rivera. Sobe á scena La hija del regimiento, e em um dos intervallos o sr. Macedo, desempenhará, no violino, o Carnaval de Veneza. Domingo temos Al Caniyitas. Quem faltará ao theatro?