Odemira 3 de agosto de 1868. Sr. redactor
Cultura e espectáculoEconomia e comércioEducacção e instruçãoMeteorologia e fenómenos naturaisAgriculturaExamesFrio intensoInstrução públicaTeatro
Teve logar hontem 2 do corrente no theatro Odemirense uma recita dada por curiosos d'esta villa. Representaram as comedias num acto—Ainda o descasca milho—O segredo da cortesã—Já não ha tolos—Os campanologos—a scena cómica—Caramba que buenas mujeres—e uma poesia a Odemira feita e recitada p lo sr. K Anastácio. Tivemos o gosto de ver pela primeira vez a nova actriz, a sr.B M. Victoria que agradou muito, entretanto é esperançosa a primeira prova e é muito raro n*um debut tanto sangue frio, tem beila voz e uma apresentação muito sympathua. O sr. J. Filippe andou bem em todo o espectáculo com especialidade na comedia Já não ha tolos. O sr. F. Anastácio tem intelligencia e diz com graça os seus papeis, na poesia a Odemira foi fcrnelicamente applaudido. 0 sr. A. Vicente tem muita inteligên cia, e declama com muita naturalidade, com a continuação pode ser um bom actor* Os srs. Daoid e Alfrodo lambem agra daram muito. O sr. dr. Abel é um bom actor, e tem direito pelo seu merecimento, desempenhou todos os papeis com muita graça. E' digno de todo o elogio este cavalheiro, pelo muito zelo g actividade que km não se poupando para que a elegancia e a boa escolha de todos os adornos sirvam para tornar ainda mais agradavel aquelle divertimento tão sympathico como instructivo. Honra pois, a todos os dramáticos, ensaiador e philarmonicos, que nos deram uma noite tão agradavel.
Theatro
Cultura e espectáculoEconomia e comércioJustiça e ordem públicaSociedade e vida quotidianaAgriculturaCostumes e hábitosFeirasFestas civis e popularesFurtos e roubosJulgamentosPobres e esmolasTeatro
Cantou-se no domingo El tio Caniyitas. Não sendo uma scena de costumes pcrMLilnenIe desenhada, soube o sr. Ortiz dar-lhe relevos lues e toques tão de mestre, que todos a julgámos n'aquelle momento completissima e inexceedivel. O cigano é assim. É o sr. Ortiz tal qual o vimos. As gerações vagabundos d'essa raça infeliz, esses cinco milhões d'homens sem patria, sem lar, que caminham sempre como o judeu da lenda, sem saber para onde, essas familias de leprosos moraes, que vivem perdidos no meio das cidades do mundo sem um lugar sequer na eucharistia das civilisações, incarnaram-se admiravelmente n'aquelle excellente actor. A astucia, a miséria, a fatalidade do destino, a alegria tradicional nas occasiões solemnes, a coragem, a agilidade, a arte da seducção, esses tons todos, em que o cigano sabe afinar como ninguem, se apresentou o sr. Ortiz sempre naturalmente, sempre cigano. O traje, os gestos e as posições fariam a fortuna do pintor que lhas copiasse. Roubou as originalidades ao cigano, e vestiu-se com ellas physica e moralmente. Cremos que o sr. Ortiz, n'aquellas duas horas de scena, daria um bello aldeador. A imprensa faz hoje o que o publico fez no domingo. Applauso do seu lugar. De resto, a não ser a modça que é bem adaptada, a Lizanda pouco vale. É um pretexto para apresentar o protagonista. A introducção do inglez é fria e chistosa e não teria mesmo alcance nenhum comico se não fosse a sr. Diez, que sabe sempre arrancar gargalhadas á platéa. O publico rio da singularidade do inglez como rirá das suas hypocrisias beatas, se elle fizer um dia o papel de turco, por exemplo. Emquanto á prima-dona e ao tenor, sabem todos que elles cantam sempre muito bem. O que é certo é que o publico bejense conhece hoje o typo do cigano, como se tivesse vindo na Andaluzia, graças ao sr. Ortiz. Quando se falla d'esta raça desfavorecida, d'este povo de proscriplos, vem naturalmente ao espirito uma grande curiosidade, como aquella que costuma vir sempre que ha grandes mysterios. Nada com effeito ha mais mysterioso do que o passado d'esta pobre gente. Nas grandes meadas d'erudição, em que se tem perdido tecer a historia d'esta raça, ainda se não atou com um fio assaz seguro, que verifique bem de fio d'Ariadne no labyrintho d'estas incertezas historicas. Se não escrevessemos apertadissimos limites d'uma local, haviamos de fazer aqui inventario de quantos segredos se teem armecido no meio das torturas impostas ao silencio dos documentos e ás mentiras da tradição, que se não falla nunca, como uma mulher, mas que mente muito. Além do Caniyitas deu-nos mais, no domingo, a companhia a zarzuela Casado y soltero em que a sr. Rima (D. Luiz*) e o sr. Diez andaram muito bem aquella no papel de velha pretenciosa, e este no de creado. Para a noite ser completa o habil violino o sr. Macedo, n'um dos intervallos, preparou-nos uma surpresa—tocou um lindo vallz que agradou bastante já pelo bem escripto d'elle, já pelo modo como foi desempenhado. O publico applaudindo-o não fez senão justiça. Terça feira repetiu-se a Marina. Tendo já escripto sobre o desempenho d'esta bella zarzuela escusado é fazel-o. Todavia mencionaremos o sr. Castillo que cantou admiravelmente. Póde dizer-se que foi a noite em que tem estado mais feliz. O publico applaudindo-o em todos os trechos que desempenhou. Fechou o espectaculo o sainete Astúcias de un tramposo, em que os sr. Torres e Ortiz tiveram a platéa em completa hilaridade. A pedido, os srs. Ortiz e Castillo cantaram a mimosa habanera Alma mia, que lhes valeu uma chamada fóra. Hontem tivemos El juramento. O seu desempenho não foi inferior ao da vez primeira que a companhia nos deu tão bella zarzuela. Não faltaram applausos. Amanhã é o beneficio da sr.ª Nieves Rivera. Sobe á scena La hija del regimiento, e em um dos intervallos o sr. Macedo, desempenhará, no violino, o Carnaval de Veneza. Domingo temos Al Caniyitas. Quem faltará ao theatro?
Concerto
Cultura e espectáculoConcertosFestas civis e populares
Na noite do 1.” do corrente mez teve lugar o da sociedade philarmonico d'esla cidade, para solemnnisar o anniversaria da sua inauguração. Damos em seguida o programma porque se regulou o concerto: 1.* parte Hymno da sociedade composto pelo sr. D. J. Navarro. Symphonia do Campanone. Duo da opera Atila—desempenhado no saxone e trombone pelos srs. Baptista e Esteves. Symphonia Vesperas de S. João—do sr. Cordeiro. 2.* parte Symphonia dedicada a el-rei o sr. D. Fernando. Ouverture d'Apollo—do sr. Pinto. Variações sobre o Carnaval de Veneza—executadas no violino pelo sr. Macedo. 3.* parte Symphonia do sr. Ribeiro. A ria da opera Lucrecia Borgia—executada no clarinete pelo sr. L. Osório. Vallz burlesco—do sr. Noronha, executada no violino pelo sr. Macedo. Canções hespanholas cantadas pelos srs. Ortiz e Castillo. Hymno da sociedade composto pelo sr. Alzamoca. Estiveram presentes para mais de 100 sócios, e muitos cavalheiros que se achavam de visita n'esta cidade. O serviço de chá e refrescos, foi feito com a maior profusão e deltcadesa. O concerto determinou á 1 hora, tendo sido perfeitamente desempenhado por todos que n'elle tomaram parte.
Club artistico bejense
Cultura e espectáculoEconomia e comércioEstatísticasExércitoMunicípio e administracção localPolítica e administracção do EstadoSociedade e vida quotidianaAgriculturaAssociaçõesAssociações recreativasBanda militarBeneficênciaEstradas e calçadasFestas civis e popularesGoverno civililuminação públicaTeatro
Teve lugar no dia 2 do corrente a inauguração d'este club. A sala, gabinete de leitura, casa de bilhar etc. etc. achavam-se bem mobiladas, e perfeitamente illuminados. Na sala via-se o retrato do rei artista, o sr. D. Fernando, por cima de um quadro em que se lia uma poesia, adequada ao acto que se solemnnisava. Tocou escolhidas peças de musica, a banda do regimento 17, que se prestou da melhor vontade a abrilhantar esta festa. O numero de socios que se acharam presentes era grande, e entre elles os srs. governador civil e administrador do concelho. Serviu-se em profusão, refrescos, doces, vinhos finos e licores. Teem pois os artistas de Beja um club onde encontram o recreio honesto e convivem como irmãos e amigos. Pelos esforços que empregaram para o instituir se tornaram dignos de louvor, e demonstram que a classe artística de Beja, progride e compenetrim-se das idéas do século em que vivemos. Que o club prospere é o que desejamos. Acha-se nisso empenhada a dignidade de uma classe inteira. Vem a proposito mencionar aqui a coincidência que notámos na inauguração do club. Ha doze annos que o sr. dr. Barreto, fez reunir, na mesma sala, onde agora se inaugurou o club artistico, um grande numero de artistas para se instituir uma associação de soccorros mutuos, o que se reabsou e ahi está produzindo os seus beneficos effeitos. Ha já doze annos, e n'aquella epocha, os agoureiros não lhe davam seis mezes de vida. É o que cremos acontecerá agora.
Recebido
Arqueologia e patrimónioCultura e espectáculoEconomia e comércioEducacção e instruçãoExércitoAgriculturaDescobertas e achadosInstrução públicaLivros e publicaçõesTreinos e manobras
Devido á deltcadrsa do ex.mo sr. barão de Albufeira acaba de entrar na nossa modesta estante, um bom livro. Intitula-se Os campos de manobras e suas principaes relações com a organização dos exercitos e é escripto pelo distincto militar que n'isso offereceu. Este livro até certo ponto, completa o trabalho encetado pelo sr. barão de Werdethuld, na Revista militar. Escripto em estylo claro e elegante encontra-se n'elle, a par de uma grande erudição militar, habil e magistralmente compilado, tudo quanto póde interessar sobre campos de manobras. O capitulo I, só por si, daria nome a quem o escrevesse. A descripção que n'elle se faz dos campos romanos, assyrios, persas, Attilhanhnses etc. etc. é bella; dá-lhe porem maior realce os documentos as notas geographicas e as considerações que o auctor faz sobre a decadência dos exercitos sobretudo do romano. Nos outros capítulos, ha tambem muito que aprender, mas o sexto e o setimo são preciosos. Contem elles a relação circunstanciada do nosso campo de Tancos, e das operações n'elle executadas, considerações sobre as differentes armas de instrucção militar, disciplina, e outros assumptos que tem intima ligação com o aperfeiçoamento dos exercitos. O trabalho do sr. barão de Albufeira em compendiar o que acerca dos campos de manobras anda disperso em livros e memorias devia na verdade ser arduo, como difficil, andando ainda sequestrados á publicidade, os relatórios officiaes sobre o campo de Tancos, descrever tão minuciosamente o que n'elle se passou nestes dois ultimos annos. Empresa difficil foi a que o sr. barão de Albufeira emprehendeu; mas se como militar tem colhido louros como escriptor tambem os colheu e não menos viçosos. Custoso, muito custoso lhe foi adquiril-os, mas s. ex.ª pode dar-se por bem pago de suas longas vigilias porque conseguiu collocar a sua obra no logar honroso da Literatura militar.
Montepio official
Transportes e comunicaçõesCorreio
Enlre os subscriptorcs que no mez úliimo entraram neste monte pio, figura o official de 2.ª classe da administração central do correio desta cidade, o sr. António Gomes Pereira.
Arrematação
Economia e comércioMunicípio e administracção localReligiãoTransportes e comunicaçõesAbastecimento de águaAgriculturaarremataçõesEstradasEstradas e calçadasFestas religiosasObras de infraestruturaObras municipais
No dia 14 de setembro se hao de a arrematar, no thezo municipal, os seguintes bens; Uma horta situada nos suburbíos da villa de Almodovar; consta de terras de semeadura, com uma nora sem engenho e um poço, vinte e nove pés de oliveiras, sete ombujeiros, vinte e duas figueiras, dez pereiras, um palmeiro e differentes arvores de caroço: parte do norte com a rua do Convento, sul e nascente com azinhaga dos Frades e poente com a rua do Serra—600^000. Herdade do Monte Abaixo situada na freguezia de Santo Ildefonso: consta de terras de semeadura, montado de azinho e sobro, tres moradas de casas de habitação terreas, uma arramada e palheiro e quatro cercas: parte do norte com a herdade do Monte da Parreira, nascente com a estrada de Ouriquc, sul com a herdade de Monte Branco dos Castellas e poente com a herdade do Monte da Atafona—2:000^000. Herdade do Monte Candhis situada na fregnezia de Nossa Senhora do Rosário; compõe-se de duas courelhas de terras de semeadura e montado de azinho: partem, a primeira, do norte com a herdade do Monte Gordo, nascente com a herdade do do Rosal, sul com courelha do Valle Grande e poente com a courelha do Valle da Pereira; e a segunda, do norte com a dita courelha do Valle da Pereira, nascente e sul com a herdade da Atabueira e poente com a herdade do Poço do Lobo—fígo^OOO. Herdade do Monte Branco, situada na freguezia de Santa Clara Nova, consta de quatro casas terreas de habitação, dois casarões, duas arramadas, dois palheiros, terras de semeadura com uma cerca, e montado de azinho e sobro: parte do norte com a herdade de Monte Agil, nascente com a herdade da horta dos Mn»n s, sul com a herdade do Vai da Vinha, e poente com a herdade das casas novas—600^000.
Exercício
Acidentes e sinistrosEconomia e comércioExércitoFeirasIncêndiosTreinos e manobras
Na quarta feira teve exercício de fogo o regimento 17 de infanteria.
Concurso
Educacção e instruçãoMunicípio e administracção localReligiãoConcursos e provisões
Entre diversas egrejas parochiaes que se mandaram prover figura a de S.^uFAnna da Serra no concelho de Ourique, n'esta diocese.
Bomba
Município e administracção localAbastecimento de água
Começou hoje a assentar-se a que a camara municipal comprou para o poço do Coelho.
Obílo
Economia e comércioSociedade e vida quotidianaFalecimentosFeiras
Falleceu na terça feira o escrivão de direito desta comarca Domingos Cardoso Guedes.
Assassinato
Justiça e ordem públicaSociedade e vida quotidianaFalecimentosHomicídios
Falleceu hontem, victima de uma paulada que recebeu na cabeça, dada por um indivíduo chamado Trincalhetas, um creado do nosso amigo o sr. Abuim.
Syndicancia
Exército
Foi a Almodovar para sindicar do conflicto entre a auctoridade judicial e a militar, o nosso amigo o sr. capitão Lagr.
Regimento 11
ExércitoTransportes e comunicaçõesCaminho de ferroEstacções
Pela ultima ordem do exercito foram mandados para o 17 de infanteria aqui estacionado, os srs. capitão Dobon, tenente Fialho de Mendonça e alferes Vieira Pimentei.
Tribunal de contas
Justiça e ordem públicaTransportes e comunicaçõesCorreioJulgamentos
Por accordam deste tribunal fui julgado quite para com a fazenda publica, pela sua gerencia desde 1 de junho de 1866 até 30 de junho de 1867, o sr. António de Almeida Farinha, director do correio de Moura.
Mina
Município e administracção localPolítica e administracção do EstadoDecretos e portarias
Por portaria de 2o do mez ultimo fui feita concessão provisória da mina de manganez, situada no Serro das Cannas Frouxas, na herdade da Balança, fregueite de Alçaria Ruiva, concelho de Mertola, n'esle districto, ao sr. Alonso Gomes
Movimento da freguesia de S. João Baptista
Sociedade e vida quotidianaFalecimentos
No mez de julho o movimento d'esta freguezia foi o seguinte: Baptismos—masculinos 1—femininos 1—total 2.—Obitos—masculinos 2—femininos 2—total 4.
Noticias de Odemira
Cultura e espectáculoEconomia e comércioAgriculturaTeatro
Em data de 4 do Corrente diz-nos o nosso correspondente; Theatro—Teve logar domingo 2 do corrente no theatro da philharmonica odemirense d'esta villa, um variado espectaculo numeroso das farças: O segredo da cortesã. Já não ha tolos. Os campanologos portuguezes; do entremez-actu comico Ainda o descasca milho e da scena cômica Caramba que buenas mujeres (desempenhada pelo sr. Ribeiro.) O espectáculo correu regularmente, e todos os espectadores ficaram satisfeitos. A sr.ª B. M. Victoria que debutou no papel de Leopoldim (no Já não ha tolos,) agradou muito, e dá esperanças de ser uma bella actriz. O sr. Anastacio recitou uma poesia, por elle composta, dedicada a Odemira; fui muito applaudido.
Poço Novo
Município e administracção localSaúde e higiene públicaAbastecimento de água
Pedimos á digna camara municipal se digne mandar limpar o Poço Novo, que, ha dezenas d annos se não vê limpo. Este poço que, pela abundantia do seu nascente, e boa qualidade d'agua, é quasi exclusivamente quem abastece esta villa, acha-se muito sujo,—o que póde tornar-se de grave prejuizo á saude publica, é de crer que a digna camara attenda aos nossos justos pedidos que sào na verdade de todo o publico.