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Interpretacção incerta

Assistimos ás representações dadas pela companhia dramatica portuguesa nas noites de domingo a quinta feira. Na primeira noite foi á scena o drama do sr. Avelar Machado—Homens do Povo—e duas comedias; na segunda—A Novella em acção—do sr. Santos, e uma comedia. Na nossa opinião o actor, que mais se distinguiu no desempenho dos Homens do Povo, foi o sr. Silva (Manuel) no pequeno papel de Francisco. Foi o verdadeiro artista, trabalhando com vontade e alegria, e guardando no coração os mais bellos sentimentos. No primeiro acto foi admiravel de naturalidade, e no segundo quando quer demonstrar a innocencia do seu mestre (Pedro) foi felicíssimo na exposição e gesto fazendo estremecer a platea pelo sentimento, com que matisou as suas palavras. Silva Junior no papel de Pedro mostrou desejos de sahir bem da difficil empresa, de que se encarregou, e se lhe falta corpo e voz para um galan dramatico, mostrou intelligencia e boa vontade, mas se o esforço é sempre louvavel n’um actor quando se não mede pelos recursos, de que dispõe, o typo, que quer apresentar, apparece sempre affectado e mal colorido. O José Bento do Segredo d’uma familia vestia mal o jalouse do Pedro dos Homens do Povo. A sua vocação mais caracteristica é a comedia. O sr. Mendonça agradou-nos mais nos Homens do Povo. Aquelle velho artista cheio d’amor pelo trabalho, de sollicitude pelos seus camaradas; aquelle coração sincero e singelo, cheio de ternura pela familia e de zelo pelo cumprimento dos seus deveres foi muito regularmente comprehendido pelo sr. Mendonça. Foi mais natural e verdadeiro, que o visconde de S. Pedro. O sr. Sá disse o seu pequeno e ingrato papel. O sr. Soares foi um bello operario no primeiro acto: no segundo pareceu-nos desigual, e a scena da embriaguez exagerou-a um pouco, parecia receiar que o publico o não comprehendesse: a scena foi muito precipitada. A sr.ª D. Maria José apesar de esconder a sua figura elegante, e a sua presença sympathica na arremessada atouce do aprendiz de serralheiro, não pôde esconder-nos o seu talento, que no segundo acto fez sentir ao publico, quanto valia aquelle coração. A sr.ª D. Mathilde esqueceu-se por vezes do papel, que representava. Está ainda acanhada e incorrecta, o que é desculpavel para a sua edade e pouca pratica que parece ter. Na Novella em acção appareceu-nos a sr.ª D. Candida, que foi quem mereceu, a nosso ver, as honras da noite—Que bello typo! Que bom desempenho! Era justo, que no terceiro acto d’uma comedia cujo merecimento é tão problematico, e cujo interesse não interessa ninguem, era justo, repetimos, que houvesse um actor e um typo, que nos despertasse tão agradavelmente a attenção. A tia Angelica do O não encontra facilmente interpretação mais cabal nem mais engraçada. No resto do desempenho notámos alguns ditos com propriedade e chiste pela sr.ª D. Maria José e o sr. Silva Junior. O mais não merece mencionar-se. A Costureira, comedia n’um acto, foi uma infeliz lembrança do sr. director da companhia. Não devia expor-se e aos seus collegas a soffrer uma manifestação de desagrado d’um publico, que tanto empenho tem sempre em os applaudir. Concluímos com um conselho: a companhia deve retirar do seu reportorio a Costureira.