Voltar ao arquivo
Artigo

Uma Rainha

Arqueologia e patrimónioCultura e espectáculoEconomia e comércioExércitoJustiça e ordem públicaMeteorologia e fenómenos naturaisMunicípio e administracção localReligiãoSociedade e vida quotidianaTransportes e comunicaçõesArquitectura históricaAssociaçõesAssociações recreativasCasamentosComércio localCorreioDescobertas e achadosEstradas e calçadasFestas religiosasiluminação públicaJulgamentosMovimentos de tropasNavegacçãoTeatroTrânsito e circulacção
Belém · Lisboa · África · França · Itália · Portugal · Reino Unido · Sabóia Exterior / internacional · Interpretacção incerta

No domingo pela 1 hora e um quarto da tarde fundeava de fronte de Belem a flotilha que conduzia de Gênova S. M. a Rainha de Portugal, a Senhora D. Maria Pia de Saboya. Vamos dar uma idéa succinta da recepção de S. M., e do que mais se seguiu até á conclusão da ratificação do casamento no vasto templo de S. Domingos. Na manhã de 5 sahiram alguns vapores ao encontro da esquadrilha que conduzia de Gênova S. M. A companhia União Mercantil havia posto os seus vapores á disposição da associação commercial, com a reserva de um para os seus convites especiaes. Para esse, a companhia da Africa convidou as redacções de Lisboa, e os redactores das provincias, que se achassem em Lisboa. Tivemos o nosso logar de convidado no Açoriano, que é um bom vaso mercante, o qual levantou ferro ás 10 horas e um quarto do seu ancoradouro defronte do caes das Columnas. Levantaram ferro quasi ao mesmo tempo a D. Antonia, e o Infante D. Luiz. Tinham já sahido derrota da barra os vapores Argus, Lynce, e Torre de Belem, aquelle á ordem do governo, e este propriedade do sr. Burnay, admittindo por bilhetes de subscripção 1$500 rs. cada um. Todos os vapores da União Mercantil levavam musica, e os bilhetes de convite foram distribuídos de modo que os convidados não fossem incommodados. Íamos excelentemente; o dia estava o melhor possivel, e o mar chão. Antes de chegarmos á barra avistámos a flotilha de Gênova. Pouco depois do meio dia saudavamos a Rainha, e cumprimentavamos os nossos patrícios e hospedes. Ao approximar-nos da corveta Bartholomeu Dias, a musica tocou o hymno do Rei, e desenvolveu-se grande enthusiasmo. Tomámos o lugar da reserva, e acompanhámos a esquadrilha até ao fundeadouro, em Belem. Alli, ao passar pela Bartholomeu Dias, desenvolveu-se de novo grande enthusiasmo, e depois de lhe termos tomado a frente, pedimos ao capitão do Açoriano que voltasse ainda uma vez a cumprimentar a Rainha, a que este cavalheiro subscreveu com a maior benevolência. Passando de novo ao lado da Bartholomeu Dias, descobriu-se tudo, então o enthusiasmo subiu de ponto. S. M. a Rainha dignou-se apparecer no tombadilho, agradecendo as cordiaes provas de adhesão dos seus novos súbditos. S. M. vestia de azul, e occupava a direita do presidente do conselho, que estava descoberto, como assim o estava toda a comitiva real. O Senhor Infante D. Augusto, acompanhado do sr. ministro da marinha, que havia embarcado no Argus, foi cumprimentar S. M. a bordo. Pelas 3 horas da tarde, pouco mais ou menos, El-Rei, e os srs. ministros do reino, justiça, fazenda e guerra, cumprimentaram a joven Rainha de Portugal. A flotilha portugueza era acompanhada pelas fragatas italianas Maria Adelaide, Duca di Genova, Garibaldi, e vapor-correio Authian. Não acompanhavam navios alguns de guerra de França, ou Inglaterra. Assim que a esquadrilha fundeou defronte de Belem, cobriu-se o Tejo de faluas e botes nas proximidades da Bartholomeu Dias. No litoral via-se uma immensa concurrencia de povo, que fazia um magnifico effeito. Á noite illuminou-se a cidade, e uma immensidade de povo percorria as principaes ruas. Hontem teve logar a ceremonia das bênçãos nupciaes, conforme estava annunciado. Nunca vimos em Lisboa tão espantosa concurrencia de povo, qual a de agora. Muitos mil provincianos vieram abrilhantar as festas do casamento de El-Rei, e saudar a sua joven Rainha, e tudo notava a maior alegria, sem que nos conste, á hora que escrevemos, que houvesse motivo qualquer de desgosto. O ceremonial acabou muito tarde, perto da noite. Suas Magestades, principalmente no transito para o vasto templo de S. Domingos, foram victoriadas em differentes pontos. O Terreiro do Paço, e as ruas Aurea e Augusta offereciam um espectaculo surpreendente. Muitas bellesas da capital e provincias abrilhantavam estes pontos. Á noite a concurrencia do povo era espantosa. A illuminação do Terreiro do Paço fazia um bello effeito. A fachada do theatro de D. Maria II estava lindissima. A illuminação de madame Aline ao Chiado estava de ultimo gosto. O arco mandado levantar pela Associação Commercial ao Corpo Santo é uma cousa magestosa. Nas ruas de maior transito havia immenso pó, e tomámos a liberdade de lembrar á exm.ª camara, que mande irrigar bem essas ruas, á cahida da tarde (ruas Augusta, Aurea, Nova do Carmo, Chiado, Arsenal). Em summa, tem sido magnifica a funcção por occasião das reaes núpcias, e confiamos que ha de concluir por tres actos, que hão de tornar para sempre commemorado tão fausto acontecimento: amnistia amplissima para todos os crimes politicos, commutação de pena para todos os outros delictos julgados, e rehabilitação dos tão infelizes, como benemeritos, officiaes realistas. Agora duas palavras ás nossas damas, acerca da sua (e nossa) joven Rainha. A Senhora D. Maria Pia é branca, rosto sobre comprido, olhos pretos, cabello loiro, orelhas largas, feições mimosas, ar insinuante e de bondade, o que dá um todo surpreendente. Damas portuguezas, a vossa Rainha é bella de corpo; mas é ainda cousa melhor, bellissima d’alma. Que Deus a felicite, com toda a sua augusta familia! Que Deus felicite Portugal! Que Deus felicite a Italia! S. M. veiu acompanhada da sua antiga aia, e de seu idolatrado irmão o príncipe Humberto. Não veiu o príncipe Napoleão, nem a sua augusta esposa. (Do Doze de Agosto.)