Expediente
Retiramos a nossa noticia sobre a festa do Sacramento, para darmos aos nossos assignantes uma outra sobre o mesmo objecto, pelo sr. José Pinto da Fonseca Neves.
Retiramos a nossa noticia sobre a festa do Sacramento, para darmos aos nossos assignantes uma outra sobre o mesmo objecto, pelo sr. José Pinto da Fonseca Neves.
Tudo quanto a imaginação do homem póde crear de grande, magestoso, e palpitante, pôde na realidade encontrar-se na soberba e grandiosa festividade do Sacramento desta cidade! A alma expande as suas azas d’alegria por aquelle acto magnifico! a vista engolfa-se no sublime da festividade! o coração dilata-se á força de viva fé, de crença arreigada! A festa do Sacramento em Beja é grande, sublime, é imponente. Á maneira de haver-se creado um termo que exprimisse um sofrimento d’alma em que ella gosa—saudade—deveria ter apparecido um vocábulo unico para que podessemos, usando-o em vez de phrases, sem acompanhamento de mais termos, dizer quanto nossa alma sente e desejara dizer sobre esta festividade. A festa religiosa do Sacramento em Beja não encerra a vaidade e o luxo como alguém temerária e offensivamente leve o arrojo de atirar da cadeira da verdade no seio de um povo crente e religioso sem fanatismo. Desde o principio da decoração do templo até ao estallo que solta o ultimo dos foguetes que corta o espaço, é tudo sublime e respeitável! Entremos em alguns detalhes do que presenciámos este anno. A procissão de Corpus Christi precedeu ás festas do Sacramento; deixemos esta de parte, que já de leve lhe tocámos, e deixando um véo sobre similhante assumpto para não nos vermos forçados a tocar-lhe de novo. Na sexta feira 5, pelas dez horas da manhã, pouco mais ou menos, todas as authoridades e empregados, em fim todos, grandes e pequenos habitantes de Beja e seus contornos, se apinhavam no templo, no atrio d’elle; era uma columna de homens e senhoras tendo por capitel a religião, e por base a caridade evangélica, sustentando a abobada do christianismo! era seguimento voluntário das maximas do Homem-Deus—adora a Divindade, enxuga o pranto do miserável! Principio sacrosanto, sahido da voz eloquente do ser invisivel e creador, tiveste na terra quem bem te comprehendesse! voz que rumorejas no coração da humanidade, foste escutada! Subio ao altar o Levita sagrado, ergue os olhos a saudar o pão do christianismo; o povo dobrou o joelho, curvou a cabeça e orou. Pelas abobadas reboaram os sons de harmoniosos instrumentos, e o povo extasiou-se! Subio á cadeira da verdade o eloquentissimo orador Manoel Henriques de Menezes Feio; o povo deixou embalar a alma n’aquelle discurso, berço de flores, de religião, mas não religião balofa, affectada e fanatica. A solemnidade da tarde, o povo se não era o mesmo em pessoa era o mesmo em crenças; o orador, com magoa o dizemos, não era o mesmo, era o sr. abbade das Chãs, que subindo áquelle lugar quiz chamar a benevolência do auditório, prevenindo-o de que não esperasse d’elle um discurso cheio de imagens poeticas e oratórias, que só para elle tinha ido buscar força ao cedro da montanha, porque disse s. s.ª a eloquência do pulpito deve ser esteril de adornos; heis-vos por terra oradores sagrados (Fabrilhas e outros, Vieira, Malhão, Lacordaire, José Agostinho), levantai-vos das campas vinde receber as lições do vosso mestre e d’elle o castigo, e vós sympathico prior de S. Thiago que tanto buscaes approximar-vos d’elles, vinde tambem ser leccionado. Se nos fosse permittido entraríamos em questão accusatoria sobre o sermão que s. s.ª nos fez ouvir n’essa tarde; não é, com sentimento nos calamos. Na manhã de sabbado as mesmas festas, as mesmas crenças, o mesmo amor, o mesmo orador, tudo o mesmo. Nas vesperas da tarde d’esse dia foi orador o sr. padre Domingues, capellão do exm.º bispo; com que mil afflicções não batalhou nossa alma ao ouvir-lhe o seu discurso? quanto aborrecidos não estivemos perto de uma hora a ouvir s. s.ª? quanto não pasmou nossa alma ao ouvir da boca do orador—sei com verdade e inteireza qual é o numero dos filiados no protestantismo, posso declará-lo como sacerdote, e no fim dizer-nos—são centenares! s. s.ª sabia com certeza o numero dos protestantes e não o lançou; disse-nos o que todos já sabiamos!! mas se vera et fama s. s.ª tinha-se revestido com as pennas do pavão, e o pavão é que não sabia o numero; certo, apesar do orador saber o numero, só nos veio dizer o que estava escripto. O discurso de s. s.ª, se não peccou pela matéria, com certeza peccou pela fórma; e diremos a s. s.ª o mesmo que ha pouco dissemos—temos pena de não podermos tractar o seu discurso. Chegou o dia de domingo, o ultimo das festas; o sermão da manhã foi confiado ao sr. Abbade; confessamos com franqueza, tanto este discurso nos agradou quanto os dois que antecedentemente s. s.ª proferio nos cahiram no desagrado; neste ultimo s. s.ª não desconheceu a sua missão. Pelas 3 horas da tarde uma magestosa procissão de caridade, em que iam conduzidas perto de 200 alcofas com pão, carne, etc., percorria as ruas da cidade apregoando em sua nudez—em Beja hoje não ha fome! Beja dá por mais uma vez ao mundo uma prova de caridade e religião! Beja não necessita que o descarado fanatismo venha bater-lhe ás portas querendo affectar-lhe o coração, e innocular-lhe os principios decahidos do Jesuitismo; e não necessita porque vive na religião e com a religião! Beja é uma povoação verdadeiramente liberal e não quer voltar ás rodas de navalhas e da fogueira! Distribuiu-se aquelle abundantissimo jantar aos presos da cadeia, a um infinito numero de mendicantes, e a muitas familias opprimidas pela miseria! O povo de Beja comprehendeu que não ha só a fome que esmola de porta em porta. Findo este acto teve lugar a procissão; que diremos d’ella? dos seus ornamentos? da numerosidade do sequito? de tudo emfim? nada; a respeitabilidade do silencio diz tudo. Á noite houve o acto da entrega da posse á irmandade de Santa Maria; chegou então o delirio, que outro nome não tem; era eloquente, apesar de para nós estranha, a vozearia do povo, a maneira porque aquella irmandade fugia com o acto da posse, como se tivesse medo que lhe não consentissem que, para o anno, seja dia que renderá, aquelles cultos ao pão do espirito! Oitenta duzias de foguetes em girandola continuada e presa subiam aos ares; o numero de luzes que aclaravam o espaço parecia aquelle que diz a tradição alumiava o Templo de Salomão! Houve Te Deum ao tomar da posse, que findando pelas 10 horas da noite, ao estalido d’uma nova girandola, disse aos christãos ali apinhados—findaram as nossas festas de regosijo christão; vinde para o anno, trazei vossos filhos, e vereis o que o nosso amor, a nossa caridade e a nossa religião não póde acabar. Eis tudo quanto presenciámos e quanto vimos, e se nos cabe aqui um pedido dirigimo-nos ás sr.as de Beja: larguem de uma vez para sempre esse attestado de cega velhice, desappareçam para sempre os medonhos biócos; não é isto uma offensa, é um pedido! as bellas não devam esconder-se ás vistas do mundo! processem os biócos e façam-os passar por um acto de fé em praça publica. Binto Neves.
Foi despachado temporariamente para a cadeira de Francez e Inglez, do lyceu nacional desta cidade, o sr. Eugênio Jorge da Graça.
Por decreto de 16 do passado mez foi provido por 3 annos, na cadeira de ensino primário da villa Serpa, o sr. Manoel Ferreira Pataca.
No dia 9 do corrente teve exercicio e revista o regimento de infanteria n.º 17. O regimento trabalhou bem.
Dizem-nos de Ferreira que na manhã de sexta feira, 29 do passado mez, houve uma desordem na aldeia de Roins entre Anna do Sacramento e Maria Florida, de que resultou ficar levemente ferida a primeira. A authoridade formou o competente auto, e prendeu a agressora.
A companhia dramatica—Viuva Lopes—levou á scena na quarta feira 10 do corrente, o drama em 5 actos—Os homens de mármore—e a comedia—Uma chavena de chá. Os actores, pelo bom desempenho da recita, foram muito applaudidos, tanto no drama como na comedia, e a platea por mais d’uma vez os chamou ao proscenio. Continue a companhia a proporcionar-nos espectaculos como o da noite do dia 10, que os bejenses não deixarão de concorrer ao theatro e dar-lhe os applausos de que se tornar digna.
Tiveram logar em Mertola nos dias 8 e 9 do corrente. Os reos foram todos absolvidos.
Publicou-se o 1.º numero deste periodico, de que é redactor e proprietário o sr. A. C. Calixto, de Serpa.
Por officio de 14 de março communicou o cônsul portuguez em Tanger, que fôra permittida a sahida livre do algodão, nos dominios marroquinos, por um anno, pagando de direitos dois duros por quintal.
E a Rosa, a lua, como lhe chamava um mimoso poeta, bella como um anjo, com aquelle seio redondo, como o da rola, não a viste, minha Beatriz? Como estava linda! que olhar tão poetico! Mas dizem que ella já não ama... Não acredites, o amor anda inherente ao talento. Ah! minha Beatriz, só o nosso amor não acaba, porque é puro, como o orvalho do Céo, porque se embala, entre suspiros, do sopro divino da saudade, nas horas mortas da noite... E que me dizes á Luiza, o sol oriental, rompendo d’além das serras? Que bem que representou! E n’uma d’aquellas scenas mais patheticas como ella te fez chorar! Ai! minha Beatriz, lembraste-te talvez d’esse amor dilacerante, phrenetico, que nos consome! E na verdade, custa tanto amar assim! apenas um olhar fugitivo, um sorriso á flor dos labios... Por Deus, Beatriz, quando fores ao theatro não te escondas atrás da Lua amiga, porque tu, com as tuas faces rosadas, com o teu penteado liso, o adejar de tuas longas pestanas, e esses olhos azues rasgados, languidos, amortecidos, és a estrella matutina, erguendo-se nas campinas d’um céo azulado! És melhor que a Rosa e que a Luiza!... J.
Égoas lançadas pelo cavallo marroquino Hibir, 18; ditas lançadas pelo cavallo andaluz, 26; ditas por um cavallo estremenho (hespanhol), 3. Total, 47. Das égoas lançadas eram: de raça alentejana (algumas já melhoradas por cruzamentos), 30; d’outras raças portuguezas, 6; de raças hespanholas, 9; de raças francezas, 2. Total, 47. A direcção do posto hippico foi confiada ao sr. Gomes, capitão veterinário de cavallaria n.º 5.