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O BEJENSE
Jornal de Utilidade e Recreio - Versão Digital
Edição n.º 59
4 notícias

Offrenda delicada

França Exterior / internacional · Geral · Interpretacção incerta

Constantino, o grande artista nosso compatriota, que ha muito foi proclamado o primeiro florista do mundo, e que reside em França, offereceu a Sua Magestade El-Rei o sr. D. Luiz uma bellissima coroa de saudades entrelaçadas em tranças de baunilha, para ser depositada sobre o ataúde de seu chorado irmão o sr. D. Pedro V. Baunilha, o symbolo da virtude e da candura; saudades, a expressão do sentimento que perpetua nas almas boas a lembrança dos que lhe foram queridos. Estas flores artificiaes são feitas com tal perfeição que parecem recem-colhidas, pelo seu viço e frescura, e até rociadas pelo orvalho d’um dia da primavera. (Conservador.)

Venda de venenos

Economia e comércioJustiça e ordem públicaSaúde e higiene públicaAgriculturaCrimesFarmáciasPecuária
Lisboa · Portugal Interpretacção incerta

É notável o abuso de se vender solimão nas boticas de todos estes sítios com o fim de matar os bixinhos que apparecem nas feridas do gado, e para matar as formigas nos celleiros de trigo! Bem sabemos que se guardam algumas precauções para impedir que se faça de tal substancia uso criminoso, mas essas precauções são inefficazes, porque já se tem dado factos de que a justiça tomou conhecimento, e quem sabe os crimes que se terão commettido com impunidade! Alem dos crimes podem dar-se descuidos gravíssimos que convem obviar. Tal venda deve ser absolutamente prohibida não só nas boticas, mas nas drogarias da capital, porque lá vende-se aos arráteis com bastante facilidade. Os lavradores destes sítios mandam-no comprar a Lisboa e distribuem-no depois pelos seus maioraes, como quem distribue rebuçados. O gado a que se applica o solimão pode ficar mercurialisado com grave prejuízo de quem houver de lhe comer a carne. Em seguida damos um meio de substituir o solimão. Remedio para as feridas do gado que criam bixos: tocam-se as feridas com uma penna molhada em espirito de terebenthina (agoa-raz) e depois polvilham-se com camphora. Se reaparecerem os bixos torna-se a usar da agoa-raz, quando não usasse só de camphora, e com isto cicatrisam as feridas. É remedio experimentado, barato e sem perigo. Para matar as formigas tambem se pode usar da agoa-raz, deitando-a nos formigueiros; se não é tão efficaz como o solimão é preferível por isento de perigos.

Epitaphio d’um jornal medico

Cultura e espectáculoEducacção e instruçãoSaúde e higiene públicaSociedade e vida quotidianaEscolasFalecimentosLivros e publicaçõesMédicos e cirurgiõesPobres e esmolas
Interpretacção incerta

«Aqui jazo systema de Raspail» diz o folhetim do Echoslaste-Medico de 31 de Janeiro ultimo. Pobre systema! Morreste e foste enterrado no folhetim! Lamentamos a escolha que fizeram do Echoslaste para jazigo; porque achamos pouca capacidade ao local para accommodar o illustre finado. O systema de Raspail não cabe n’um folhetim. O jornal toxicophylo não deve gostar d’um systema que baniu da medicina o mercurio, o arsenico, a strychnina etc.; achou mais simples dal-o por morto; mas se com isso se alegra muito, não se enthusiasme porque o systema não morreu. O espirituoso folhetinista quiz talvez fulminar algum charlatão, que se aproveita do systema de Raspail assim como outros se aproveitam da fabulosa homeopathia, não se lembrando que tambem ha grandes charlatães que empregam a medicina escolar, e que nem por isso o folhetinista quererá condemnar o systema classico. Pobre humanidade! Estás condemnada a ser victima da sciencia dos arcanos!

Refeitões de Cupido e Baccho em Serpa

ExércitoSaúde e higiene públicaSociedade e vida quotidianaBeneficênciaHospitais
Serpa · Portugal Hospital

Ha dias disse Antonio Alhinho a sua filha: «Olha que se sei que continuas a olhar para o Joaquim Lagarto parto-te quantos ossos tens no corpo.» N’uma tarde, vindo para casa um tanto alegre, quem ha de encontrar? o Lagarto, tambem inspirado de Baccho, entretido com a filha! Sem mais cumprimentos pucha d’uma navalha e começa a derramar o sangue do namorado, que, sem mais ceremonia, retribue com outras tantas navalhadas a delicadeza do excellente pae da dama de seus pensamentos. A menina grita por soccorro; acode o sr. Administrador, que prende os dois paladins. No caminho, volta-se o Alhinho para o Lagarto e diz-lhe: «Oh! Joaquim, eu sou teu amigo, e então que leve o diabo a guerra. Esquece as facadas que ahi tens, que eu tambem esqueço as minhas, e namora-te quanto quizeres com a moça, mas casa com ella.» = Diz bem, mano Antonio, que leve o diabo a guerra e as facadas; mas olha, manda a moça ver-me lá ao hospital, que me ha de fazer bem.» Pois sim, ha de ir.» E com effeito, todos os dias tem a rapariga ido ao hospital ver o seu namorado, que está na melhor paz do mundo com aquelle que lhe desejou ver as tripas?