Mr. Joséph Daillot, o amigo dos pobres, procurou hoje o sr. provedor do hospital civil e disse-lhe que sabendo as graves difficuldades com que a casa lucta, resolvera dar-lhe de esmola o producto de um beneficio. O espectaculo tem logar terça feira. Em nome dos infelizes pedimos ao publico que concorra, e confiamos que não faltará.
Publicou
se a 35.ª caderneta dos Padres e Beatos, e a 3.ª dos Conspiradores.
O serviço do caminho de ferro do sueste está pessimo. Ha remessas de trigo que tem gastado doze dias para chegarem ao Barreiro! Parece incrivel mas é verdade.
Terça feira vendeu
se no açougue carne em putrefacção. Um policia vio-a e deixou correr a coisa. Achamos bom.
Foi transferido para Ferreira o escripturario do escrivão de fazenda de Ourique, e para Ourique o de Ferreira.
Foi transferido para caçadores n.º 4 o tenente do 17 de infanteria, o sr. Gaudino Anselmo de Oliveira.
Foram apresentados: na egreja de S. Martinho das Amoreiras, o presbytero Adriano Augusto de Vasconcellos; na de Mertola, o presbytero Emydio Duarte Ferreira; na de S. Miguel do Pinheiro, o presbytero Carlos Augusto Botelho Palma.
Sabbado repete
se no theatro Dallot, em beneficio do sympathico actor Fonseca, o Abracadabra 36, peça que tem sido, como diz o cartaz, Uma alta novidade! e obtido Um successo immenso! Não lhes dizemos mais nada. Vão pois tomando os seus bilhetes, porque não entram só os que não tem cabeça, mas os descuidados, os que não conversarem, logo na manhã de hoje, com o bilheteiro.
Mandou
se reparar o edificio do correio.
Corre que é transferido o engenheiro chefe de secção da direcção de obras publicas d’este districto, o sr. José Victor da Costa Sequeira.
Foi collocado em infanteria 17 o sr. tenente João de Mello Correia.
Dizem
nos que em Aljustrel e seu termo tem apparecido lebres de mau caracter, havendo alguns casos fataes. No principio da semana estavam atacadas 130 pessoas.
Terça feira, pela manhã, manifestou-se fogo em uma casa na rua de Lisboa. As providencias foram promptas e os prejuizos pequenos.
A commissão de jurados reuniu terça feira e eliminou do recenseamento José Godinho, por não saber ler nem escrever, e José Francisco de Assis Coelho e João Silverio de Mira, por terem mais de 65 annos de edade. Os requerimentos do arrematante das [ilegível] de Ferreira a Alfundão, e do primeiro engenheiro deste districto, foram indeferidos.
[Odemira] Chegou na semana passada a esta villa, um destacamento de policia civil. Na verdade a falta de policia já se fazia sentir, e muito bem andou o sr. administrador do concelho em dar as providencias necessarias, para que Odemira readquirisse o destacamento policial.
[Odemira] A cortiça tem muitos attractivos, muitos adoradores. N’esta villa é ella tão estimada, que até já ha individuos que se armam em corsos, unicamente por... bem lhe querer. Ha dias um meliante, decerto amigo d’aventuras nocturnas, vai a um logar, no rio, onde se achava ancorada uma lancha da sr.ª D. Francisca Varella, e ligeiro, empurra a lancha remos, e vae buscar uma porção de cortiça, á outra margem do rio, a uma pilha, suppomos de que do sr. D. Antonio Catalão, e com toda a pericia, habilidade, intrepidez e afouteza, rema para a margem direita do rio, com a preza segura, e quando, descalço, se encarregava de transportar ás costas, para certo ponto da villa, parte da sua preza, é presentido, e tem a fortuna de escapar mais veloz que um gamo, e de deixar boquiabertos 3 robustos individuos, que vigiavam o gatuno. O meliante, sim deixou os sapatos de penhora no batel, e a opinião publica pronuncia-se abertamente indicando o nome do auctor do furto. Mas será elle processado? Haverá quem reconheça os sapatos? É o que estamos para ver. É necessaria uma severa correcção a estes amigos do alheio, a estes negociantes improvisados, que descaradamente vendem cortiça, sendo duvidoso e mais problematico o meio como a adquirem.
[Odemira] Causou, aqui, curiosidade uma policia correccional que teve logar no tribunal judicial d’esta villa, no dia 18 do corrente. Era reu um pobre guarda de alfandega, accusado de na passagem da procissão do Corpus Christi de certa freguezia rural d’este concelho, ter mettido o bonet na cabeça, na occasião em que passava o S. S., e de não ter dobrado os joelhos convenientemente. O reu defendeu-se dizendo que tirara o bonet, na devida occasião, e que fizera a devida genuflexão de militar. Foi absolvido. Agora diremos nós: Que lucrou a religião com a perseguição que se faz a um pobre guarda d’alfandega? Quando ainda mesmo elle tivesse peccado, não perdoou Christo (cheffe invisivel da igreja) aquelles que o offenderam? Não é o symbolo da religião christã: paz, caridade e concordia? Como se harmonisa um tão divino symbolo com a intolerante perseguição feita ao pobre guarda? Voltámos porventura aos desgraçados tempos do fanatismo intolerante e cruel? Teremos imminente a restauração da Santa Inquisição? Ora isto no seculo 19.º, é de mais! Não nos tomem á conta d’atheu, ou hereje (o que nos tornera pouco importa); gostamos de ver respeitada a religião de nossos paes, mas ainda gostamos mais que se respeite a religião da nossa consciencia, e que se não exerçam vinganças mesquinhas, á sombra do labaro da redempção. O estado em que vimos o pobre guarda moveu-nos á compaixão. Felizmente encontrou elle na pessoa do ex.mo sr. Jeronymo Maximo d’Almeida, dignissimo 1.º substituto do juiz de direito, quem lhe fizesse justiça — absolvendo-o. Foi defensor o ex.mo dr. Cochado, que de bom grado tomou sobre si a tarefa de defender o pobre guarda de tão... negregado delicto.
[Odemira] Começou a exportação de tremoços, pela barra do nosso rio.
E estão assentes mais tres portões da galeria da escada dos paços do concelho.
[Odemira] No rocio d’uma das freguezias ruraes d’este concelho, existe grande numero de estrumeiras que é preciso fazer desaparecer e as respectivas covas entulhadas para se não crearem depositos de miasmas, que redundam sempre em prejuizo da saude publica e cujos resultados já essa freguezia está soffrendo com as muitas febres que ali ha. Ao ex.mo administrador d’este concelho pedimos providencias certo do que s. ex.ª não descurará tão importante assumpto e talvez o mais grave da administração; aguardando para mais tarde o nome da freguezia e os nomes dos donos das estrumeiras se por ventura não formos ouvidos.
O juiz de direito de Mertola foi transferido para a comarca de Vieira.
Recebemos e agradecemos Os Açores, folha consagrada aos negocios açorianos. Publica-se em Angra. Muita vida ao novo collega.
A banda do 17 de infanteria sahiu hoje para Almodôvar. Vae tocar nas festas.
Está concluído de pintura mais um gabinete do segundo andar dos paços do concelho, e a escada interior, até ao segundo patim.
[Santa Luzia / Ourique] A aldeia de Santa Luzia, do concelho de Ourique, outr’ora muito salubre, está hoje immensamente insalubre, e na actualidade o povo na maior parte, enfermo. O que dará motivo a esta grande mudança? Um grande foco de infecção que se tem creado dentro da aldeia e que já de ha muito seu pernicioso effeito se faz sentir n’aquella localidade: sepultar os cadaveres em um acanhado terreno que circumda a egreja, porque em Santa Luzia não ha cemiterio! Cumpre á camara municipal de Ourique remediar o grande mal fazendo construir sem demora o cemiterio. Temos fé que a illustrada camara não exitará um momento no cumprimento d’um dever, e que motivo alheio e uma boa vontade parece ter obstado ao que urge fazer de prompto.
Pela repartição de fazenda d’este concelho se faz publico que na mesma se acha patente por espaço de 10 dias successivos que deverão começar no dia 1.º de setembro proximo, a matriz da contribuição industrial do corrente anno afim de que desde as 9 horas da manhã até ás 3 da tarde e dentro do referido praso os interessados a possam examinar, e apresentarem as suas reclamações. Beja 26 d’agosto de 1879.
Distribuiu
se o numero 13 do excellente semanario geographico Jornal de Viagens e Aventuras de Terra e Mar. Eis o summario do numero de que fallamos: Texto: Costumes e religiões dos povos barbaros; As amazonas de Dahomey; Pelas regiões longinquas; O elephante na Africa; O lago de Genebra; Aventuras de Terra e mar; Aventuras perigosas em a Nova Guiné; Viagens celebres; As regiões polares; Historia dos piratas, corsarios e negreiros; Os zulus e os hollandezes da Africa austral; Chronica; A venus negra; Lagos da Europa; Os nomes das cidades nos Estados-Unidos; Africa; O gigante dos Alpes; [ilegível]; O Niagara; O canal do Panamá. Illustrações: As amazonas de Dahomey; No combate; O lago de Genebra; Castello de Prangins e villa Denduti, celebre por ter sido a residencia de Lord Byron; A Africa mysteriosa; Um [ilegível] na corrida vertiginosa um gorilla; [ilegível] no mar largo; Viagens celebres; Franklin. Para que o Jornal de Viagens seja accessivel a todas as classes, a empreza resolveu abrir venda avulsa no Porto, Lisboa, Braga e em casa de todos os seus correspondentes. Estão no prelo as primeiras folhas do romance geographico A Africa mysteriosa que brevemente serão distribuídas. Vae entrar no prelo o Almanach elegante de lembranças — publicação americana. A empreza recebe annuncios para o almanach: 500 reis a pagina; 300 reis meia pagina e um quarto de pagina 200 reis. A venda será aberta em todas as terras do reino, e ilhas, etc. nos principios de setembro. Este utilissimo livro, será um guia seguro do viajante, leva annuncios das casas de negocios mais importantes e respeitáveis do Porto. A empreza do Jornal de Viagens acaba de comprar ao editor de Paris o direito da traducção e publicação em Portugal e Brazil do esplendido romance de Adolpho Belot, A Venus negra. O referido romance será a segunda obra da bibliotheca geographica illustrada do Jornal de Viagens. As gravuras são as da edição franceza, compradas tambem ao editor de Paris. As condições d’esta publicação são as mesmas da Africa mysteriosa, isto é, de 100 reis por cada fasciculo de 32 paginas com gravuras para os assignantes do semanario e de 150 reis para os não assignantes. A correspondencia deve ser dirigida a Ferreira de Brito, Bomjardim, 489, Porto.
A bibliotheca Dois Mundos distribuiu aos seus assignantes o fasciculo n.º 7 da Historia Universal redigida segundo um methodo novo por Lévi (Alvarés) corrigida e ampliada na parte relativa á Historia de Portugal e á da Hespanha por Fernandes Costa. A edição portugueza da Historia Universal de Lévi (Alvarés) é precedida da exposição circumstanciada do methodo tanto para estudo particular como para ensino publico.
Maravilhas da creação. Publicou
se a 19.ª folha d’esta excellente obra.
Padres e Beatos. Está publicado o 4.º volume d’este interessantissimo romance de Hector Malot. No prelo está o 5.º volume do qual já sahiram as primeiras folhas. Lisboa. Sebastião J. Bracam.
[Lisboa] Lisboa
27-8-79. (Correspondência particular.) Meu charo redactor. Quando tracei a correspondencia para o n.º 972 d’este jornal, já sabia a quem me dirigia e o que tinha de esperar do sr. Carrilho Videira, porque todos temos visto a guerra que este sr. promove contra os que não se querem sujeitar ás suas imposições; comtudo julguei que este cidadão me respondesse como homem e não como uma ribalda das mais desbragadas. A resposta do sr. Carrilho apenas serve para confirmar as minhas asserções, as quaes sustento até que se justifique, o que eu muito estimarei, porque o meu desejo é descobrir aonde existe a calumnia, a intriga e os intrigantes. É calumnia o que avancei na minha correspondencia de 15 do corrente? Então o sr. Carrilho não teve conhecimento de correr o boato de que conferenciava com o sr. Sampaio?! Foi sabido que existia na redacção do Bandeira um escripto relativo a este boato, e tanto isto é verdade que o mesmo sr. Carrilho soube da proveniencia do citado escripto; será isto calumnia, cidadão? Será calumnia a sua expulsão d’entre os da rua do Norte, tal e qual eu disse, embora lhe fizessem injustiça? Não disse o sr. Carrilho, no centro da calçada do Cascão, que o sr. Antero do Quental e o sr. dr. Maia eram uns falsarios e que por causa d’elles se tinha perdido a eleição do sr. Theophilo Braga? Não é o mesmo sr. que hoje vota a alliança com aquelle, que ha poucos dias appellidava de falsario? Ou o sr. Antero do Quental não é hoje o mesmo cidadão que era hontem? Responda ás minhas perguntas, mas responda como cidadão; dê uma resposta categorica e não me responda com evasivas insolentes, menos dignas de um cavalheiro que o preza. Sustento o que disse, repito, e se o cidadão Carrilho Videira se justificar d’estas e outras accusações que lhe teem sido infligidas, encontrar-me-ha ao seu lado combatendo os falsarios, aquelles que procuram pelo meio da intriga inutilisar os homens que advogam os principios republicanos — a causa do povo — a causa da humanidade! Do contrario lançar-me-hei na sua frente e será considerado como inimigo dos principios que acaba de exarar. Fez mal em parar com as investigações a meu respeito, porque se eu fui infeliz em lhe chamar [ilegível], o cidadão não foi mais feliz ao dizer que eu tenho protecções e conhecimentos dos americanos, se bem que não tenha desprezo em ser cocheiro, porque ha cidadãos tão honrados como os dos livreiros. Concluirei devolvendo ao sr. Carrilho Videira as grotescas phrases com que se dignou responder-me e espero a sua justificação, se é que a tem. Como dissemos em a nossa ultima correspondencia, reuniu-se em nova extraordinaria, na segunda feira 18 do corrente, a assembléa geral do centro republicano de Lisboa afim de resolver sobre a eleição do sr. Eduardo Maia. Presidiu o cidadão Sousa Brandão, e serviram de secretarios os cidadãos dr. E. Maia e Paulo da Fonseca. Tomaram a palavra os cidadãos Castello Branco, Eça Ramos, e o cidadão Silva, delegado do centro federal, que participou á assembléa que o centro federal sustentava inabalaveis as suas resoluções com respeito á candidatura do sr. dr. E. Maia. A assembléa tomou conhecimento do que acabava de expor o cidadão Silva. Foi muito discutido este assumpto sem que porem houvesse resolução definitiva. Creio que este importante assumpto terá de ser votado na próxima reunião que terá logar na segunda feira 2 de setembro. M. Bruno.
[Aljustrel] Aljustrel 14 de agosto. Acabou agora a tourada para a qual o ex.mo sr. dr. Carlos Passanha, a pedido do sr. P. S., teve a bondade de emprestar o seu gado, e é tal a indignação com que de lá vimos que só a imprensa nos pode servir de lenitivo para podermos esquecer a dôr porque estes miseraveis nos fizeram passar assalariando um miseravel a troco de charutos, para soltar offensas contra o nome honrado da ex.ma sr. dr. Carlos Passanha e sr. P. S. só porque um apresentou o gado e outro o pedio! Dá alguem noticia de almas mais abjectas e vis do que estas? Conhece alguem homens que mandem outro proferir palavras que offenderiam o decoro só para saciar paixões? Mas a indignação cresceu ao vermos o regedor e escrivão da administração, o immortal Teixeira, que presidiam á policia, rirem das palavras do desgraçado, que estava ebrio, deixarem de admoestar o tal maltez e de o deixar retirar d’um recinto onde elle nunca deveria ter ido se a policia se não fizesse n’esta terra para outras cousas que não fossem a persegui-lo. O fim conhecemos nós, o que vós quereis é que á provocação acudisse o sr. P. S. para ser preso e passar por mais esse vexame que as vossas intenções tragueiras tinham em vista, remettendo o preso para Beja e fazel-o responder a mais uma policia! Infames, faltou o vosso plano, com a prudencia do sr. P. S. Infames. Nós bem sabemos que por muito duras que sejam as palavras que tenhamos de vos dirigir, vos não molestam a dignidade, porque nunca a tivestes, nem vergonha de qualquer casta, nós bem o sabemos, assim como tambem temos a certeza de que só o ridiculo, isto é dizer-vos o que vós fostes nos vossos principios é que vos custa, porque quereis ser aqui e fora grandes senhores em nobreza e em riqueza, quando não sois mais que uns miseros desgraçados que a politica facciosa e relaxada d’essa homenagem fez para ella deixou de existir, e vos consentiu meterdes as mãos e os pés nos cofres da camara e da misericordia, para hoje passardes alguma cousa melhor do que aquelles que hoje como vós n’outros tempos guardaram porcos e cães, como um homem de 3 côres. E já que fallámos da misericordia pedimos licença ao sr. governador civil para lhe dizermos que a misericordia tambem precisa syndicancia: haja vista a divida de 400$000 rs. que Antonio Severino metteu no inventario por causa da separação de pessoa e bens entre elle e sua esposa, dizendo ser esse estabelecimento devedor a elle, quando é certo ser elle o devedor não sabemos de quanto. Armas leaes, miseraveis, nada de traições nem de represalias e veremos qual dos combatentes tem o povo a seu lado, a quem vós tanto tendes ludibriado.
[Queirella / Vizeu] Queirella
Vizeu, 23 de agosto, 79. ... sr. redactor do Bejense. Acabo de receber de um dedicado amigo a noticia, de que em um dos numeros do seu jornal vem inserta uma correspondencia de Aljustrel, anonymo, bem entendido, datada de 12 do corrente, em que o seu auctor principia por dizer: «O sr. dr. Figueiredo ex-administrador deste concelho de accordo com o sr. Cardote, juraram perder Antonio Joaquim Inglez, unico empregado honrado que aqui tem vivido, forjando infamias de que só elles são capazes, e de que ainda ninguem se lembrou, á excepção d’elles! e continua n’este theor e forma...» Nenhuma duvida pode haver de que o fim que o auctor anonymo teve em vista, proclamando o director do correio de Aljustrel o unico empregado honrado que tem vivido n’aquella villa, foi fazer-se ouvir ao longe; pois que em Aljustrel sabia elle que um tal disparate apenas poderia provocar a justa indignação das pessoas sérias e honradas, e a gargalhada dos proprios amigos d’aquelle empregado publico. Ás invectivas que o auctor anonymo publicou contra mim não posso, nem devo responder. As injurias, calumnias e diffamações nunca foram consideradas razões, senão para servirem de prova contra quem as emprega. Direi apenas, por agora, e unicamente para esclarecimento de quem por tão vagas declamações, mal poderia ficar sabendo de que se tratava o seguinte: Um amigo meu, que, como o sr. director geral dos correios sabe, não foi o sr. Cardote, escreveu-me de Aljustrel, em 2 de julho, uma carta, que foi detida no correio d’aquella villa, mas que eu não cheguei a receber. A 10 do mesmo mez era eu avisado de que os amigos intimos do director do correio andavam propalando uma noticia completamente falsa, que me dizia respeito. Mais tarde, a 24, quando o meu amigo soube de que eu não respondera á sua carta por a não ter recebido, vim ao conhecimento de que aquella noticia não podia espalhar-se, a menos que não houvesse sido devassado e dolosamente alterado o conteudo da carta subtrahida. A 29, dirigi-me ao ex.mo sr. director geral dos correios, expondo-lhe o facto e pedindo-lhe providencias, cujo resultado aguardo. Achando-se, pois, este negocio affecto ao ex.mo sr. director geral, não posso, nem devo por emquanto fallar do director do correio de Aljustrel. Mais tarde, se o julgar necessario ou conveniente, me occuparei d’elle, não com vagas declamações, nem com attestados de carteiro, mas sim com documentos. Assim o declaro desde já ao meu protector para seu conhecimento, e para que me não leve a mal as referencias, que por ventura tenha de fazer-lhe, ao apreciar, uma a uma as graves e repetidas queixas que me têm sido dadas contra aquelle empregado, mesmo antes de eu ter sido administrador d’aquelle concelho, e os meios de que elle tem lançado mão para obter que sejam archivadas. Ao auctor da correspondencia, que defendendo como elle diz, a causa da justiça, julgou, todavia, conveniente esconder-se por detrás da capa do anonymo, como faria qualquer covarde que tivesse perpetrado um crime atroz, tenho simplesmente a dizer, que no tribunal de Beja lhe poderei estreitas contas do seu procedimento. Não vale, porem, fazer-se substituir no banco por algum d’aquelles celebres proprietarios, que só podem pagar as custas... na cadeia. Termino aqui, sr. redactor, esperando que v., que fez inserir a accusação, se dignará mandar inserir tambem a defeza, e n’esta esperança assigno-me. De v. etc. M. J. Rodrigues de Figueiredo.
[Cabeça Gorda] Cabeça Gorda 21 de agosto de 1879. Temos sobre a nossa mesa de trabalho um pasquim, cujo auctor ignorantemente teve a ousadia de subscrever, e o qual nós vamos aqui transcrever na sua integra, para que o publico possa avaliar uma obra de tanto merito, parto do sr. Ricardo Gomes, presidente [ilegível] da junta de parochia da Salvada! O sr. Gomes apresenta symptomas de quem não está em seu completo juizo e, bom seria, que o fizessem recolher a Rilhafolles, antes que a enfermidade seja incuravel e venha a acarretar a esta freguezia males que se não possam posteriormente remediar. Consciencios d’isto, não surprenderá por certo os leitores tanta tolice e estupidez, como ali ha a notar. Eis a copia fidelissima do pasquim do sr. Gomes: «Cautella!! Fiquem sabendo os habitantes da Cabeça Gorda que a applicação de quinino e limonada sulphurica feita por engano, (ao doente Thomaz Lampreia,) foi por outro e não por mim como publicamente apregoava um illustre Cabalheiro d’esse logar no dia 8 do corrente mez, em casa de um amigo e na presença de muitas pessoas. O illustre Cabalheiro de certo, foi mal informado, e por isso talvez, incorreu na tolice de imputar-me um acto que não foi praticado por mim; e se não o foi, deixa revelar a má [ilegível] com que apregoava este facto. Mas como poderá esse Cavalheiro fazer valer o [ilegível] e fructo que desejava da propagação da sua doutrina, quando o proprio, confessou ao sr. dr. Menezes á vista de algumas pessoas que effectivamente não tinha feito a applicação do quinino! Cabalheiro!!! D’esta vez não pega a [ilegível]. Salvada 12 de agosto de 1878 — assignado — Ricardo Antonio Gomes.» Analysem bem os leitores a limonada sulphurica que o sr. Ricardo lhes apresenta, não seja que se ache inficionada e corrompida pelo sulfato de quinino, seu medicamento predilecto para todos e para tudo, ministrando-o aos enfermos em doses tão avultadas, como não ha memoria nos annaes da medicina. No primoroso trabalho que o sr. Gomes apresenta temos nós a notar, nada mais e nada menos, do que uma accusação scientifica, que bem se poderia tomar como a imputação implicita de um crime pela sciencia feita a um individuo daqui, honrado rival do sr. Gomes, e a pretensão de desprestigiar ao mesmo, além d’isto o repugnante desafogamento com que o sr. Gomes applica o termo patrio, Cabalheiro a um individuo que, sabe o sr. Gomes, é, sem ironia, cavalheiro. O sr. Gomes assim o respeitava, quando elle accodia nas suas necessidades, quando lhe matava a fome que o devorava e que o pasquineiro da Salvada ingrataamente não correspondeu. Ora, para que o sr. Gomes nos possa convencer da inconveniencia na applicação dos medicamentos que menciona, é necessario que venha á arena publica com a sua sciencia medica provar-nos até á evidencia aquella inconveniencia. Isto sobre o primeiro ponto de sua pasquinada. O sr. Gomes, estamos convencidos d’isso, ignora o sentido lato da palavra cavalheirismo, mas pode estar certo de que, as pessoas que s. s.ª pretende depreciar e desconhecer, lhe estão muito acima em probidade e honradez quanto a nosso ver. Se em alguma cousa este pasquineiro andou com acerto foi, por certo, em afixar na esquina de uma casa onde foi substituido por um ramo de verdura o seu fructo litterario, maduramente pensado e circumspectamente escripto! Só alli ficava bem collocado um tal trabalho, só aquelle era o logar adequado para receber uma producção de tal naturesa e de uma tal personagem! É necessario, diz o rifão, que a pilheira diga com a cantareira. Desculpe-nos s. s.ª se nos não servimos, para divulgação d’estas linhas, do mesmo local e pela fórma por si escolhida; outros porem, é o nosso modo de pensar, outras as nossas idéas, outros os sentimentos pundonorosos que nos adornam. Permitta-nos esta vaidade. Estamos conhecedores de tudo quanto se passou no tratamento do enfermo, a que o sr. Gomes allude; o que não sabemos porem, é se houve quem offerecesse ao sr. Gomes 8$000 ou 5$000 réis, mediante os quaes s. s.ª se obrigava a enviar o enfermo para onde effectivamente foi, e qual a pessoa que fez a offerta e se fez a quantia se a satisfez e se a fez? Já vê o illustrissimo pasquineiro que nos achamos ao facto de tudo! Aproveitamos este ensejo para implorarmos de s. s.ª a bondade de sustar com o seu projecto de inimisar com o povo um individuo, residente n’esta aldeia, aliás teremos de nos servir de uns meios por nós bem conhecidos e que por certo serão algum tanto dissaborosos para s. s.ª. Esperaremos que s. s.ª venha a publico, mas não pela fórma de que até agora usou, illudir-nos com cantigas e embustes n’alguns erro miudos a respeito de que aqui hoje tractamos. Em todo o caso, até breve, illustre pasquineiro. Montes.