BEJA, 19 DE MAIO. Está funccionando a junta geral. Terça feira, pela uma hora da tarde, achando-se reunidos os procuradores em numero legal, entrou na sala o sr. governador civil e feita a leitura do relatorio sobre o estado do districto, declarou, em nome de el-rei, aberta a sessão. Em seguida occupando o presidente e os secretarios os seus logares disse aquelle que o primeiro trabalho era eleger commissões e resolvendo a junta que fossem nomeados pela mesa, a presidencia propoz para a Commissão de consulta, além da mesa, os srs. procuradores por Ferreira e Alvito (Mello Garrido), Vidigueira (dr. Jalles) e Almodovar (conselheiro Aboim). Commissão de expostos: os srs. procuradores por Beja (dr. Anselmo), Cuba (Matheus Lobo) e Almodovar. Commissão de repartição da contribuição predial: os srs. procuradores por Beja (visconde da Côrte e dr. Anselmo), Castro Verde (dr. Mira), Mertola (padre Medeiros) e Cuba. Commissão de viação: os srs. procuradores por Serpa (dr. José Ricardo), Beja (visconde da Côrte) e Odemira (José Candido do Castro e Sousa). Commissão de orçamento: os srs. procuradores por Serpa, Moura (dr. Fialho Machado) e Aljustrel (commendador Carvalho). Commissão da cadeia districtal: os srs. procuradores por Castro Verde, Vidigueira e Ferreira e Alvito. Approvada a nomeação das commissões leu-se na mesa a seguinte proposta: «Propomos que a junta geral contraia um empréstimo de 30:000$000 reis para a construcção da cadeia districtal.—Francisco Ignacio de Mira.—Matheus Lobo de Brito Godins.» Esta proposta foi approvada e enviada á commissão respectiva. Hontem e antes de hontem trabalhou a junta em commissões.
Na correspondencia de Lisboa para o Primeiro de janeiro lê-se, entre outras cousas, o que se segue: «Um boato cuja veracidade não posso affirmar, circula desde hontem nos centros políticos. Aqui ha dias, em plena festança do príncipe de Galles, fallou-se n’um facto escandaloso em que estava envolvido o sr. ministro da justiça, com offensa dos direitos de um particular. Não quiz referir-me ao assumpto porque era pouco do domínio publico e porque era d’aquelles em que se deve proceder com todo o escrupulo.» «Agora a noticia do facto espalhou-se muito; diz-se que o offendido querelou contra o snr. Barjona, que assim tem de figurar n’uma causa escandalosa, o que é incompatível com o exercício do cargo de ministro da corôa, e por tal motivo sairia do gabinete, acrescentando-se que seria substituído pelo sr. conselheiro Sá Vargas.» Acreditamos que haja escandalo, mas não cremos que por causa d’elle o sr. Barjona saia do ministério. Não são os ministros actuaes que cedem o posto por questões de moralidade. Haja vista o comilão Antonio Cardoso Avelino, que mais achacado do que Lazaro, em vez de esconder-se, faz gaita em se mostrar e o que é mais de cabeça erguida! E havia de pedir a demissão o ministro da justiça; cahir nessa aquelle grande melro? Assim elle era tolo. Acha-se sua ex.ª, ao que dizem, envolvido em um processo [ilegível]? Mais uma rasão para comer bem e beber melhor. Pois então? Chia o carro? Que chie á vontade, vamos acomodando Neufeis e pensando nas freiras de Odivellas e quem se doer que se torça. Isto vae n’um sino e palavra de honra, que o estimâmos.
A crise bancaria, diz o correspondente do Diário Progressista, reflecte já os seus effeitos na praça de Lisboa, e todos os estabelecimentos bancarios dobraram as amarras, e adoptaram outras precauções de segurança, na previsão do que possa succeder. As operações monetarias paralyzaram de todo. Não ha quem desconte uma letra, por pequeno que seja o seu valor, e por curto que seja o prazo dos seus vencimentos. Dos bancos teem sido levantadas importantes sommas dos depositos, e se este movimento não serenar, é de receiar complicações graves, que aliás somente serão resultado do panico. Para que se veja até onde chega o retrahimento dos capitaes bastará dizer que, segundo corria hontem na praça, o governo teve necessidade de fazer um supprimento de 30 contos para pagar uns restos de festejos, e só pôde obter aquella somma a 14 por cento de juro. Todos os animos se mostram dispostos a promover e aceitar uma combinação razoavel para conjurar a crise; mas tambem são geraes as censuras contra o governo, por não haver tomado em tempo as providencias que devia tomar, e que por mais de uma vez lhe foram indicadas, para o effeito de evitar a catastrophe que estamos vendo. Quando se manifestou a febre da jogatina dos fundos hespanhoes, quando de cada canto surgiam bolsins, o governo folgava, jogava chascos á opposição e applaudia-se por aquellas brilhantes manifestações do credito e da prosperidade publica. Debalde se pediu um regulamento de bolsa, que pozesse cobro ás especulações desordenadas e ao jogo fraudulento. O governo a nada se moveu, deixou a jogatina livre, e nem sequer se resolveu a tomar providencias em vista de um facto succedido em Lisboa com um capitalista que se recusou a satisfazer os seus encargos de liquidação fiduciaria, o que era o prenuncio do que ora está succedendo. Jogavam milhões de escudos com animo tão despreoccupado, como se se tratasse de pinhões. E a fraude, e o grande perigo d’este jogo, estava em que, nem os vendedores possuiam os fundos que vendiam, nem os compradores possuiam fortuna em correspondencia com os valores dos fundos comprados. Qualquer individuo chega á bolsa, e sem ter um unico titulo na carteira offerecia á venda dous ou tres milhões de escudos em titulos de divida hespanhola para a liquidação da proxima quinzena, e qualquer outro, sem possuir em caixa talvez meia duzia de contos de reis, comprava esses milhões de animo alegre e descuidado. Chegado o prazo, liquidava-se a differença entre o preço da venda e a cotação do dia, e essa differença era paga pelo comprador ou pelo vendedor, conforme o saldo era contra um ou contra o outro. Assim era facil jogar em milhões. Vendia-se o que não existia, porque a venda era sobre um objecto imaginario, e mero pretexto da jogatina. Em ultima analyse aquellas operações de bolsa correspondiam a um jogo de azar, em que se aposta pela alta ou pela baixa, do mesmo modo que na roleta se aposta pela preta ou pela vermelha, pelas maiores ou pelas menores. Para isso servia um regulamento de bolsa, e se os vendedores fossem obrigados a apresentar os titulos, e os compradores a dar uma caução por uma parte do preço não se fariam essas vendas phantasticas, que foram arrastadas ao exagero, e que são a fonte principal da crise que estamos soffrendo. Mas o governo nada quiz ouvir, porque os resplendores falsos d’aquelle joguinho serviam-lhe para se ataviar com as glorias de fomentador da prosperidade publica. Os resultados ahi estão patentes, e oxalá não vão mais longe. Agora são os apuros para todos: apertos para o thesouro e ameaça de ruinas para o commercio. E’ o balanço de cinco annos de prosperidade excepcional! é o balanço de cinco annos de imprevidencia e desatinos, que por si annullaram todos os beneficios da sorte.
Os preços porque correm differentes generos nesta cidade são: Trigo 580 a 600 réis o alqueire. Farinha 620 e 640 réis o alqueire. Azeite 1:600 a 1:700 réis o almude. Vinho 1:000 réis o almude.
NOTICIAS DO CONCELHO DE MOURA. Continuam os empregados do posto fiscal da Amarelleja, de que é encarregado o sr. Thomaz Couto Correia, a prestar relevantes serviços á sociedade. No dia 27 do passado abril conseguiram capturar o Zé da Vestia, que ha dois mezes se tinha evadido da cadeia de Moura. Foi preso no baldio da Amarelleja, apenas 2 kilometros distantes d’aquella povoação. O sr. Thomaz Couto Correia, desde que o encarregaram d’aquella diligencia, não cessou d’empregar todos os meios ao seu alcance para a captura do réo. Render homenagem aos que á custa da propria existencia sabem desempenhar o seu dever, é de justiça. Cá de longe lhe enviamos um abraço. A prisão foi feita pelos empregados José Luiz, Francisco da Silva Jordão e Luiz Antonio, sendo este o que mais se distinguiu pelo seu valor e coragem, correndo sobre o Zé da Vestia, que vendo-se perseguido, embuscando-se no mato, apontava a espingarda ao sr. Jordão, que mais proximo passava d’elle; foi então que o sr. Luiz Antonio, que o vio na attitude de disparar, avançou para o criminoso, conseguindo que elle se rendesse, entregando-lhe a espingarda. Sente-se a falta d’uma força militar que auxilie tão dignos empregados. Muita convinha um destacamento n’aquella aldeia, que conta hoje 800 fogos. Os empregados não são os bastantes para zelar pelos interesses da fazenda, e fazer o serviço que a outros pertence. Estamos crentes, que a maneira de regenerar o concelho de Moura, era estacionar um forte destacamento de cavallaria n’aquella villa, porque reúne em si todas as condições, e todo o concelho partilhava do melhoramento tão transcendente. E’ inegavel que os regedores com a sua policia, a maxima parte, tendo d’ir ganhar um jornal para alimentar a vida, não podem conter as desenvolturas, provenientes da má educação de quasi todos os povos da raia, para onde affluem dezenas de desertores de Hespanha, e d’outros criminosos, que não obstante a franca e leal hospitalidade, que de melhor grado se lhe presta, uns abusam pondo em pratica os seus pessimos costumes, outros propagam doutrinas oppostas ao bem estar das familias; doutrinas que o povo, sempre propenso ao mau, sorve a largos tragos. Convençam-se do que aqui expomos. Uma povoação como a Amarelleja precisa d’uma força militar, para que a auctoridade se possa fazer respeitar, do contrario caminhamos sempre mal. B.
O concerto que no domingo ultimo se realisou no theatro provisorio, agradou. Os concertistas foram a sr.ª Anna Albani, violinista, Raphael Albani, guitarrista e cantor, e Marinoni. Este toca lyra romana. Houve applausos.
Foi promovido pela ultima ordem do exercito a capitão de infanteria 17, o tenente-ajudante de infanteria 11, o sr. Miguel Augusto Rozendo Murteira.
Foi suspenso em resultado da syndicancia a que se está procedendo, o director do correio de Odemira. O syndicante é o sr. Gustavo Carlos de Souza.
A camara, na sessão passada, approvou unanimemente o projecto de reconstrucção dos paços do concelho, elaborado pelo habil mestre de obras, o nosso amigo o sr. José Maria Cuco.
No mez findo, na camara municipal de Mertola foram registadas 12 minas; 11 de manganez e 1 de chumbo.
O sr. Joaquim Augusto Cecilia Kol, aspirante da alfândega de Serpa, foi transferido para a de Elvas.
Recebemos e agradecemos o 1.º numero do Museu litterario. E’ um interessante semanario de instrucção e recreio, onde collaboram Julio Machado, Bulhão Pato, Thomaz de Carvalho, Gervasio Lobato e outros muitos homens distinctos na republica das letras. Agradecemos o exemplar que nos foi mandado e fazemos votos porque o novo collega tenha longa vida.
Continuam os requerimentos á camara pedindo terreno para edificações no rocio d’Ao Pé da Cruz. Já foi entregue aos emprezarios da praça de touros a primeira remessa de madeira.
Luiz de Araújo, o poeta popular, assistio terça feira, no theatro provisorio, ao ensaio de sua bonita comedia Intrigas no bairro e prometteu aos curiosos honrar o espectáculo com a sua presença.
A sociedade de geographia de Lisboa, approvou na sessão de terça feira uma proposta do sr. G. Pery, para que o distincto engenheiro de minas, o sr. Lourenço Malheiro, seja, nos Estados Unidos, o delegado extraordinario da sociedade.
O destacamento do 17 de infanteria, que se achava em Cezimbra, commandado por um sargento, já recolheu ao seu quartel.
Foi collocado no cunhal do prédio do sr. Fonseca, ás Portas de Mertola, um lampeão municipal. Tornava-se bastante necessario.
A junta militar de saude, julgou em sessão de 8 do corrente, incapaz do serviço do exercito, o capitão de infanteria 17, o sr. França.
Parece que anda por ahi vadiando um homem que se acha hydrophobo, em consequência de ser mordido de um cão atacado d’aquella molestia. O homem é de Peroguarda, e evadiu-se á familia.
Domingo houve festa no Pé da Cruz, a expensas da irmandade respectiva.
Começaram no dia 12, as audiencias geraes d’esta comarca.
Sabbado, chegou a esta cidade a força do 17 de infanteria que sob o commando do sr. capitão Valente, esteve guarnecendo a Torre de S. Julião da Barra, emquanto as tropas da capital tomaram parte nos festejos ao Príncipe de Galles.
O candidato ministerial por Beja é o sr. conselheiro Perdigão.
Dizem
nos que vão celebrar-se exequias pelo eterno descanço da infanta D. Izabel Maria. Deixem-se disso porque a boa da velha testou nada mais nada menos que 2:000 missas por sua alma. Isto é bastante, mas se é pouco, os padres que lhe psalmeiem de graça. De graça? De graça não porque se abotoaram talvez com duzentos contos. Elles pois que pranteiem e que tratem ex officio de reconciliar a alma da infanta com o supremo juiz, se é que precisa disso quem foi tão catholica e apostolica e tambem romana durante a sua peregrinação por este valle de lagrimas.
O sr. alferes Coelho, recolheu com a força do seu commando, que esteve destacada no Barreiro, ao quartel nesta cidade.
Anda em obras a casa do sr. Doria, na Praça de D. Manuel, onde no segundo semestre deste anno se deverá installar a repartição d’obras publicas do districto.
Partiu para Lisboa em companhia de seu filho primogenito, que vae cursar as aulas superiores, o nosso bom amigo o ex.mo sr. dr. José Maria Ganso d’Almeida.
Os exames de admissão aos lyceus estiveram rigorosos. Não estranhamos porque devem sempre proceder assim os examinadores. Contudo de 48 alumnos que requereram exame apenas 7 ficaram reprovados.
Está em plena convalescença o nosso amigo o ex.mo sr. Manoel Vaz Preto Giraldes. Folgámos de poder dar tão agradavel noticia.
Um musico de 1.ª classe do 17 de infanteria que havia ido á capital, afim de concorrer aos exames para contra-mestre, que tem tido logar no conservatorio, consta que desistiu.
Esta semana devem concluir
se as obras na matriz, onde este anno, no proximo mez, teem logar as festas do Sacramento.
Acabou de construir
se a semana passada, mais um moinho de vento, nos suburbios desta cidade. E’ propriedade do sr. José Maria de Jesus.
No terreno que a camara deu de aforamento, junto ao Pé da Cruz, começaram já a abrir-se os alicerces para as edificações.
Do antigo mosteiro do Carmo Velho, tem vindo para a construcção do theatro, bastantes materiaes produzidos de demolição.
Prégou na funcção d’Ao Pé da Cruz, no domingo, o nosso amigo o sr. dr. Macedo. Como de costume, dizem-nos que agradou.
Pelos guardas fiscaes desta secção, foi domingo preso e deu entrada nas cadeias desta cidade um tal Cypriano, a quem foi encontrado um pacote de tabaco e uma pouca de fazenda de contrabando.
O sr. Joaquim José Tristão, alferes de infanteria n.º 17, foi transferido para o 6 da mesma arma.
Terça feira teve revista em ordem de marcha, o regimento 17 de infantaria. Passou-a o ex.mo tenente coronel.
Teve a commenda hespanhola de Isabel a catholica, o ex.mo sr. visconde da Boa Vista, Francisco.
Foram transferidos para o regimento 17 os srs.: José Marcellino, alferes de caçadores n.º 7, e Joaquim Antonio dos Santos Calqueiro, capellão provisorio.
Foram do cofre central de Beja para Faro 22 contos de réis. Serão empregados em obras publicas.
O secretario d’esta divisão militar, o sr. João Luiz Muzanty Junior, foi transferido para a primeira.
No dia 12 do proximo mez de junho hão-de arrematar-se differentes bens nacionaes, situados no concelho de Alvito.
Durante a noute de sabbado, domingo, e terça feira por quási todo o dia, choveu bastante.
O sr. José Maria d’Almeida Garcia Fidié, director das obras publicas deste districto, fez parte da commissão de exame á ponte de Villa Nova de Portimão.
Foi decretado que na tabella das estradas, datada de 9 de janeiro de 1867, passe a ser designada assim a estrada n.º 113 — Cultos—Panóias—Guerreiro—estação do caminho de ferro Entradas—Castro Verde.
O sr. juiz de direito de Odemira deu um jantar aos presos da cadeia da mesma villa no dia em que tomou posse.
A empreza Horas romanticas brindou
nos com o primeiro volume das Tragedias de Pariz e o sr. Chardron, o incansavel editor, com o 1.º volume dos Contos de Escrich. Agradecemos os presentes.
Suspendeu a sua publicação o Echo Social, interessante folha açoriana. Sentimos.