Já está em Beja o muito digno vigario pro capitular desta diocese, o nosso bom e honrado amigo o ex.mo sr. dr. Boavida.
Deu
se n’esta cidade um tristissimo acontecimento, que vivamente impressionou todos os que conhecem a infeliz victima d’elle, e as deploraveis circumstancias, que lhe deram origem. Na segunda feira proxima, Antonio Proença, serralheiro, com loja na rua da Capellinha, pobre velho, côxo, e aleijado da mão esquerda, mas ainda assim mesmo infatigavel em ganhar o pão quotidiano para si e sua familia, lançou mão de uma pistola, que, ha tempos, lhe haviam entregado para concertar, e, no momento em que a examinava e se dispunha a concertal-a, dispara-se ella e leva-lhe os dedos, esphacelando e contundindo os ossos da mão direita! A arma havia sido entregue ao infeliz, carregada e sem aviso algum de que o estava! Brutal descuido, estupida imprevidencia que assim vota á desgraça e á dôr os ultimos dias de um artista honrado e laborioso, e lança na mais deploravel miseria uma familia inteira. O acontecimento teve logar ás 2 horas da tarde, e ás 3 era-lhe amputado o braço acima do pulso, pelo sr. dr. Ganso d’Almeida, facultativo do hospital, coadjuvado pelo sr. dr. Menezes, que ligou as arterias, e pelo sr. Sant’Anna, que foi encarregado da compressão. O infeliz está em tratamento no hospital, em quarto isolado, tendo-lhe sido concedida a companhia da esposa, como pedira, e cercado de todos os cuidados, que o seu estado grave reclama.
Recebemos e agradecemos o 5.º fasciculo dos Tribunaes Secretos.
Foram transferidos: o sr. Francisco Xavier de Sousa, delegado do thesouro neste districto, para Aveiro, e o sr. Andrade, delegado do thesouro na Guarda, para Beja.
O incansavel editor, o sr. Ernesto Chardron, vae prestar mais um valioso serviço ás pessoas que não tenham ainda adquirido o «Grande Diccionario Portuguez» e que o desejem obter por meio de prestações. Para esse fim acaba de abrir uma subscripção permanente, por meio da qual a referida obra será distribuida ás cadernetas, todas as semanas. O Diccionario completo é dividido em 50 cadernetas, cada uma de 120 paginas, ou 360 columnas de texto. O preço de cada caderneta é de 500 reis, pagos no acto da entrega, que será feita todos os sabbados. É pois esta a melhor occasião de se obter, com pouco sacrificio, uma obra valiosa e de verdadeira utilidade.
Ás cinco horas da tarde, de hontem, formou em ordem de revista, no largo em frente do quartel, o regimento 17 de infanteria. Foi para lhe ser passada uma minuciosa revista pelo digno coronel o sr. Araujo [ilegível].
A uma penosa enfermidade, a que bastante difficil se tornaria a resistencia em ainda tenra edade para prosseguir no viço da vida, succumbiu, segunda feira 10 do corrente, uma linda filhinha e neta dos nossos amigos os srs. Antonio Gomes Pontes e André Gomes Pontes. Damos-lhes os nossos sentidos pezames, e acompanhamol-os no fervente dôr que deve opprimir-lhes o coração de pae querido e avô estremoso.
Foi aposentado o primeiro official da repartição de fazenda deste districto, o sr. Francisco de Paulo Costa.
Loba
Foi encontrada morta a que, na montaria de 2 do corrente, foi ferida pelo habil caçador o sr. Antonio da Rocha Raposo d’Ervidel. Parabens aos lavradores.
Infanteria 17
Houve hoje ás 6 da tarde exercicio no desaterro, commandado pelo sr. tenente coronel Sousa.
Publicou
se o 2.º fasciculo do Crime de [ilegível], excellente romance de Xavier de Montépin, traduzido pelo sr. Sequeira e editado pela Bibliotheca dos dois mundos.
Recolheu a diligencia do regimento 17, que sob o commando dum subalterno tinha ido policiar a feira de Garvão.
Foi authorisada a quantia de 37 contos de reis para a exploração do caminho de ferro do sueste, alem da verba que está designada para aquelle fim no orçamento geral do estado.
Correspondencias—Amigo redactor
É possivel o que é possivel que a correspondencia de 10 de abril, que vinha inserta no seu acreditado jornal o Bejense, seja do exm.º sr. Francisco Paes de Mattos Feio etc. etc., não posso acreditar mesmo no que veio, s. ex.ª um homem tão honrado, um homem de todo o merito, finalmente um homem tão grande, talvez o primeiro homem deste povo de Beringel, vir ás columnas deste jornal censurar rudemente o reverendo prior desta villa. Oxalá eu tivesse sabido quem era o auctor da correspondencia, por certo não lhe teria respondido, não teria ido á imprensa censurar um dos membros de minha familia, sem ao menos me dar a conhecer. Hoje que estamos em campo descoberto, diga-me sr. Francisco não lhe diz a sua consciencia que o reverendo prior não trabalha senão para o bem dos seus parochianos, o seu afan é todo para bem d’elles, não lhe diz tambem a sua consciencia que eu e o prior trabalhamos para vir um facultativo da escola de Lisboa ou Porto, que são os mais aptos para esta villa, pois s. ex.ª não ouve os lamentos deste povo inteiro, não sabe que os dois partidos medicos não preenchem o fim para que foram creados? Diz mais s. ex.ª não querer que o povo pague, não quer mais derramas porque o povo é pobre, quer tudo pago pela camara; quem se oppoz á venda do rocio (bem sabiamos que era contra lei) que era uma das fontes de receita que eram uns trinta a quarenta mil reis que vinham fazer face ás despezas ordinarias, não sabe quem foi? foram os seus amigos, quizeram as administrações das confrarias para a junta para das sobras se fazer alguma cousa, e logo v. ex.ª por detraz da cortina se oppoz fazendo com que alguem fosse a Ferreira copiar os compromissos e os apresentarem; com as sobras e rendimento do rocio fazia-se o que se está fazendo por meio das derramas; já vê que se o povo as paga é o si e os seus amigos as devem. Diga-me sr. Francisco qual é o rendimento da camara, não são as derramas, iriam fazer maior derrama nas outras freguezias para Beringel só gosar, estabelecendo um privilegio escandaloso; v. ex.ª sabe tudo isto, mas não lhe faz conta... ainda muito a dizer, mas o melhor é ficar em silencio. Tambem v. ex.ª diz que não responde á minha de 24 porque nella mesma está a resposta, digne-se responder sr. Francisco porque tudo tem resposta. Agora só tenho a dizer aos dignissimos signatarios do abaixo assignado, que os lamentos, que hoje estou inteirado de que assignaram (não digo todos) com o ardil de simples amisade, e depois fizeram o que viram; custou-me amargamente ver ali alguns nomes de cavalheiros que me conhecem, e que sabem a pureza dos meus sentimentos, sabem que ha 13 annos n’esta terra nunca fiz, quando occasião se proporcionou, senão procurar o bem estar deste povo. Beringel 6 de maio de 1875. De v. etc. Eduardo Manoel Cardoso.
Tendes os abaixo assignados visto no Bejense, uma correspondencia, assignada pelo sr. Eduardo Manoel Cardoso, em que se fazem allusões desfavoraveis a um cavalheiro desta freguezia que, se diz ser o nosso valioso amigo ill.m.º Francisco Paes de Mattos Feio etc. etc., não podem os signatarios deixar de manifestar desgosto e indignação pelas injustas allusões feitas a um cavalheiro prestante, digno de estima e consideração. Ligamo-nos aos cincoenta signatarios no Bejense n.º 748 com data de 30 de abril de 1875. Beja 12 de maio de 1875. Joaquim Romão Cruio, proprietario. João Ramos Velho, idem. José Joaquim Adão, idem. José de Brito Magro, agenciario. José do Monte, proprietario. Manuel Jacinto Machado, artista. Simão Manoel da Silva, idem. Antonio de Monte Rosa, idem. José Ribeiro, idem. Zeferino José Espinho, proprietario. [ilegível] da Palma, barbeiro. Antonio Mendes Palma, proprietario. José da Conceição Espinho, idem. Joaquim Mendes Palma, idem. Sebastião Elias Candeias, artista. José Maria da Silva, major. Manoel Antonio Milhano, artista. Mathias Antonio, agenciario. Manoel Guerreiro, maior. José Francisco Caetano, proprietario. Manoel Gonçalves, idem. Zeferino José da Silva, idem. Joaquim [ilegível], idem. Joaquim Antonio Placido, idem. Manoel Enderenço Gallego, idem. José Gonçalves, agenciario. Antonio Fernandes Duarte, idem. Deodato Antonio de Mattos Veiga, maior. Manoel Augusto Rodeia, artista. Theotonio Galvão, idem. Reconheço as trinta assignaturas da presente nota por serem dos proprios, e feitas na minha presença do que dou fé. Beringel treze de maio de mil oitocentos setenta e cinco. Em testemunho de verdade. O tabellião, João Ramos Nogueira.